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O desafio além do carbono: como integrar biodiversidade às políticas ambientais

Plantações de eucalipto são monoculturas muito comuns no Brasil: absorvem carbono, mas abrigam uma diversidade de vida menor (Foto: Alfribeiro/Getty Images)

Reduzir as emissões de gases de efeito estufa é indispensável, mas algumas soluções incompletas podem agravar a perda de biodiversidade, a poluição e outros problemas ambientais

POR ULYSSES FERRAZ

Diante da crise climática, muitas empresas e governos buscam formas simples de demonstrar comprometimento com o meio ambiente. A “pegada de carbono” tem sido uma medida muito usada com esse propósito, pois converte as emissões de diferentes gases de efeito estufa em uma medida equivalente de dióxido de carbono. Isso permite padronizar a avaliação de seus impactos sobre o aquecimento global e criar estratégias de compensação. Ou seja, promover uma política verde para compensar os efeitos de atividades que continuarão emitindo.

No entanto, criar e avaliar políticas climáticas não é tarefa simples. Algumas medidas que contribuem para conter o aquecimento global podem deixar outros problemas ambientais sem resposta ou até agravá-los.

Não basta calcular quanto carbono uma política deixará de emitir ou retirará da atmosfera. É preciso considerar as condições sociais e ambientais em que essas políticas são implementadas e como seus efeitos são distribuídos entre diferentes grupos da população. As ações devem levar em conta a proteção da biodiversidade, da qualidade do ar e da saúde das pessoas.

Como pesquisador em teoria política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), dedico-me a integrar os problemas de justiça ambiental e climática a questões mais amplas da justiça social. E tenho observado que uma avaliação reducionista das políticas ambientais pode produzir diferentes formas de conflito.

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Perda da biodiversidade: uma crise negligenciada

Um dos problemas desse tipo de política é que algumas soluções para a mudança climática podem prejudicar diretamente a biodiversidade. Por exemplo, na América do Sul há o plantio de árvores escolhidas por sua capacidade de absorver carbono rapidamente. Essas plantações são frequentemente chamadas de “desertos verdes” porque abrigam uma diversidade de vida muito menor do que as florestas que um dia existiram ali.

Ao mesmo tempo, a perda de biodiversidade pode agravar a mudança climática no longo prazo. Ecossistemas como florestas, oceanos e solos removem e armazenam grandes volumes de carbono. Quando são destruídos ou degradados, sua capacidade de regular o clima diminui e parte desse carbono pode ser liberada na atmosfera.

No Brasil, país com a maior biodiversidade do mundo, essa relação é especialmente importante. O desmatamento nos diferentes biomas permanece entre as principais fontes nacionais de gases de efeito estufa.

O problema é grave. Segundo a avaliação global do IPBES, cerca de um quarto das espécies de animais e vegetais está ameaçado de extinção. Mais de 85% da área de zonas úmidas existente em 1700 havia desaparecido até 2000.

Mas a separação entre esses dois tipos de enfrentamento existe politicamente desde 1992. A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, deu origem a duas das principais convenções ambientais internacionais, uma dedicada à mudança climática e outra à diversidade biológica. Mais de três décadas depois, a mudança climática tornou-se uma preocupação política central, enquanto a perda de biodiversidade recebe consideravelmente menos atenção.

Essa diferença de atenção ganha especial relevância em 2026. A COP17 da Biodiversidade ocorrerá de 19 a 30 de outubro e fará a primeira avaliação global do cumprimento das metas internacionais adotadas em 2022 para deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030. Poucos dias depois, terá início a COP31 do Clima.

Conflitos pela qualidade do ar

Pode parecer contra-intuitivo, mas outro problema que a conta de carbono não resolve é o da qualidade do ar. A cientista atmosférica Róisín Commane chama a atenção justamente para os casos em que a redução das emissões nem sempre produz um ar mais limpo.

A experiência europeia com veículos a diesel ajuda a entender o problema. Seu uso foi incentivado sob o argumento de que emitem menos CO₂ do que os movidos a gasolina. No entanto, liberam mais óxidos de nitrogênio e outros poluentes nocivos à saúde.

Testes em condições reais nas ruas indicam níveis ainda superiores aos registrados em laboratório. No Brasil, medições realizadas em 2024 na Região Metropolitana de São Paulo mostraram que caminhões a diesel recentemente certificados emitiram mais de três vezes o limite legal de óxidos de nitrogênio.

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Outro exemplo é a queima de madeira, que já foi cogitada como uma fonte de energia neutra em carbono. Isso porque o CO₂ liberado na combustão seria reabsorvido pelo crescimento de novas árvores. Porém, a queima libera de imediato o carbono que é acumulado pela árvore durante décadas, enquanto que sua reabsorção depende do crescimento (lento) de novas árvores.

Além disso, a combustão produz substâncias tóxicas. No Brasil, isso ocorre em escala industrial na cogeração de eletricidade e vapor com bagaço de cana. Embora substitua combustíveis fósseis, sua queima em caldeiras também libera material particulado, monóxido de carbono e óxidos de nitrogênio.

Nas cidades, conflitos semelhantes aparecem em situações menos óbvias. Melhorar o isolamento térmico dos edifícios e eletrificar sistemas de aquecimento e refrigeração pode reduzir o consumo de energia e as emissões de CO₂.

Porém, edifícios excessivamente vedados e sem ventilação adequada podem concentrar poluentes provenientes de materiais de construção e equipamentos domésticos, como fogões a gás. Um edifício pode consumir menos energia e, ao mesmo tempo, apresentar pior qualidade do ar no seu interior.

O mesmo vale para a arborização urbana. O plantio de árvores ajuda a reduzir as ilhas de calor e contribui para a absorção de dióxido de carbono. Mas algumas espécies, como os carvalhos, liberam isopreno em altas temperaturas. Na presença de óxidos de nitrogênio provenientes da queima de combustíveis fósseis, essa substância favorece a formação de ozônio próximo à superfície, um poluente nocivo à saúde e à vegetação.

No Brasil, esse tipo de problema foi analisado em uma área urbana próxima à Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Isso não diminui os benefícios da arborização urbana, mas mostra que a escolha das espécies e a redução das emissões de poluentes atmosféricos precisam ser planejadas em conjunto.

Disparidades da crise climática

Um fator que dificulta a adoção de políticas mais eficientes é a desigualdade na distribuição dos riscos ambientais. Políticas ambientais operam dentro de uma economia global em que decisões sobre investimentos, uso da terra e exploração de recursos são orientadas, em grande medida, pela expansão da produção e pela rentabilidade de curto prazo.

Quando políticas impõem limites a essa dinâmica, entram em conflito com interesses econômicos dotados de enorme capacidade de pressão política. Sem enfrentar essas causas estruturais, elas continuarão tentando conter danos que o próprio funcionamento da economia volta a produzir.

A exposição à poluição, aos desastres e a outros riscos ambientais varia de acordo com a classe, a raça, o gênero e o território. Pesquisas mostram que o 1% mais rico da população mundial produziu tanta poluição de carbono em 2019 quanto os cinco bilhões de pessoas que compõem os dois terços mais pobres da humanidade. Em contrapartida, as nações que mais sofrem com as mudanças climáticas impulsionadas por essas emissões estão entre as mais pobres, que emitem relativamente pouco.

Além de os países mais ricos terem mais recursos para se proteger de seus efeitos, parte dos impactos associados ao alto consumo ocorre em regiões onde se concentram a extração de matérias-primas e outras atividades produtivas. A busca pela transição energética também aumenta a demanda por minerais cuja extração pode gerar importantes impactos ambientais e sociais nos países produtores.

O filósofo e crítico cultural britânico Mark Fisher popularizou a ideia de que parece mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Realmente, os caminhos para essa transformação estrutural não são evidentes.

As políticas são os instrumentos de que dispomos no momento. Portanto, elas precisam ser pensadas de forma mais integrada e não podem ser consideradas bem-sucedidas apenas por diminuir a quantidade de carbono na atmosfera. É preciso considerar outros impactos e quem será afetado. Enfrentar a mudança climática não pode ser às custas da biodiversidade, da qualidade do ar ou da justiça ambiental.

Ulysses Ferraz – Doutor em Ciência Política e pesquisador de pós-doutorado pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Este texto foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. A realização deste artigo contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes). Leia o original.

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Foto: Alfribeiro/Getty Images
Plantações de eucalipto são monoculturas muito comuns no Brasil: absorvem carbono, mas abrigam uma diversidade de vida menor

 

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