Episódio na fronteira entre Nepal e Tibete ilustra como um desastre pode criar as condições para o próximo
POR DANIEL PARSONS
As recentes inundações devastadoras que assolaram a região fronteiriça entre o Nepal e o Tibete são, antes de tudo, uma tragédia humana. Centenas de pessoas morreram ou continuam desaparecidas.
Mas, à medida que os cientistas começam a reconstruir o que aconteceu, o evento também revela algo fundamental sobre a forma como compreendemos os riscos naturais em regiões de alta montanha. Montanhas e rios não voltam ao normal após um evento extremo. Um deslizamento de terra altera uma encosta. Uma enchente reestrutura um rio. Uma geleira em recuo expõe sedimentos e solo instável. Cada perturbação altera as condições em que a próxima ocorre. No Himalaia, essas conexões podem transformar riscos isolados em cascatas destrutivas de riscos.
As primeiras evidências sísmicas e de satélite indicam que esse desastre começou no alto das montanhas, com o colapso de parte de uma encosta e de uma geleira íngreme no Tibete. Uma enorme massa de gelo e rocha desceu rapidamente para o vale abaixo, mobilizando água, sedimentos e detritos que, em seguida, se espalharam pelo sistema fluvial e chegaram ao Nepal. Vai levar tempo para se estabelecer a mecânica exata do evento. Mas descrevê-lo simplesmente como uma enchente captura apenas a fase final de um processo muito mais longo.
Estou envolvido em um projeto acadêmico entre o Reino Unido e a Índia que parte de uma proposição simples: o risco de desastres no Himalaia não é estático.
Mudanças climáticas estão alterando a forma como os riscos interagem
Por exemplo, o recuo das geleiras pode deixar expostas encostas instáveis e grandes reservas de sedimentos soltos. Alguns locais assim foram descritos como “bombas de sedimentos”, pois enormes quantidades de material podem permanecer em um vale até serem liberadas por outro deslizamento de terra, chuvas intensas ou uma enchente. O primeiro risco, portanto, altera a paisagem na qual o próximo desastre ocorre.
Seria errado concluir, apenas com base no colapso de uma geleira, que as mudanças climáticas causaram esse desastre específico. Eventos isolados exigem uma análise cuidadosa das causas, e as paisagens íngremes do Himalaia sempre sofreram com deslizamentos de terra, avalanches e enchentes. Mas o aquecimento global está alterando as condições de fundo nas quais esses processos ocorrem: as geleiras estão recuando, as encostas que elas inadvertidamente sustentam estão sendo desestabilizadas, novos lagos glaciais estão se formando e grandes volumes de sedimentos soltos estão sendo expostos. O ar mais quente também pode reter mais umidade, aumentando o potencial para precipitações intensas.
Mais importante ainda, essas mudanças estão tornando os riscos ainda mais interligados. Mudanças nas geleiras podem influenciar a estabilidade das encostas. Deslizamentos de encostas podem destruir geleiras em segundos e alterar padrões inteiros de drenagem fluvial. Rios alterados podem mobilizar sedimentos. Os sedimentos podem amplificar inundações subsequentes.
Além disso, as paisagens montanhosas retêm um registro físico do que aconteceu anteriormente. Um deslizamento de terra pode sobrecarregar um sistema fluvial com detritos que levam anos ou décadas para se deslocarem rio abaixo, alterando os leitos e mudando o comportamento de inundações posteriores.
Chuva forte caindo sobre uma bacia hidrográfica relativamente estável, com um leito fluvial desobstruído, é uma coisa. A mesma chuva após um grande deslizamento de terra ter depositado milhões de toneladas de sedimentos e estreitado esse leito é outra. O risco e o evento desencadeador podem ser semelhantes. A paisagem que a chuva encontra, porém, não é.

No mais recente desastre no Nepal, os sedimentos serão redistribuídos pela bacia hidrográfica. Os leitos dos rios vão mudar, e algumas encostas podem ter ficado desestabilizadas. Os diques que antes conduziam a água e os sedimentos foram danificados ou totalmente destruídos.
As comunidades também podem sofrer esses efeitos. O mesmo corredor fluvial sofreu graves inundações em 2025, quando houve perda de vidas, uma “ponte da amizade” entre o Nepal e a China foi destruída e o transporte e o comércio foram interrompidos. Algumas comunidades afetadas ainda viviam com as consequências de um desastre anterior.
Planejamento para desastres precisa levar em conta uma paisagem alterada
O alerta prévio precisa acompanhar essas mudanças, e esse desastre é mais um sinal para o enfrentamento dos desafios fundamentais em torno da gestão de riscos de desastres. Os sistemas de alerta costumam ser construídos com base em riscos e limites conhecidos: um determinado nível do rio, de intensidade de chuva ou encosta instável.
Mas eventos de grande magnitude podem alterar a própria geografia do risco. Após um deslizamento de terra ou fluxo de detritos, um afluente antes insignificante pode conter enormes quantidades de sedimentos em movimento, enquanto um rio que antes conduzia as enchentes das monções com segurança pode ter se tornado mais raso ou mais estreito. Rotas de evacuação podem desaparecer.
Um mapa de riscos elaborado antes de tal evento pode, portanto, fornecer uma representação cada vez mais imprecisa do que acontece depois. Um dos objetivos do nosso projeto é desenvolver maneiras de acompanhar essas mudanças e incorporá-las às avaliações de risco e a novos sistemas inteligentes de alerta.
A abordagem dos riscos em cascata significa questionar como um desastre altera as condições para o próximo. As enchentes no Nepal deixarão para trás leitos fluviais alterados, encostas instáveis e infraestrutura danificada. A próxima chuva forte – ou o colapso de uma geleira – encontrará essa paisagem já alterada.
Daniel Parsons – Pró-reitor de Pesquisa e Inovação e professor de Geociências pela Universidade de Loughborough, na Inglaterra.
Este texto foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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