BRICS ganha espaço de diálogo e cooperação no esforço global para promover transições energéticas justas, ordenadas, equitativas e inclusivas
POR MARIA BEATRIZ MELLO, MAUREEN SANTOS E PAULA SANDRIN
A declaração final da cúpula do BRICS, realizada em Nova Délhi em setembro de 2026, destaca o Sul Global como um “agente de mudança positiva, especialmente diante de desafios internacionais significativos”, entre esses as mudanças climáticas. Mas o que isso significa?
Para responder a essa pergunta que foi criado o Observatório de Ambição Climática do Sul Global, iniciativa da Plataforma Socioambiental do BRICS Policy Center, da PUC-Rio. Aqui, mostramos o que ele já revela e como o BRICS pode atuar como agente de mudança positiva diante da crise climática.
O que é o Sul Global?
O Sul Global é um agrupamento de países muito diverso, com trajetórias marcadas por desigualdades econômicas, colonização ou dependência externa e menor poder no sistema internacional. Reúne grandes produtores de petróleo e economias de alto Produto Interno Bruto, países de baixa renda, nações de grande extensão territorial e pequenos países insulares. Mas não é apenas uma designação geográfica, também enfatiza como essas nações foram marginalizadas nas decisões internacionais e seu interesse em fortalecer seu espaço nelas.
Nesse sentido, qualquer discussão sobre a ação climática desses países precisa levar essas diferenças em conta. Nas negociações climáticas, o Sul Global, representado pelo G77+China (hoje com 134 países) e outras coalizões, defende o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, dentro das respectivas capacidades (CBDR-rc, na sigla em inglês), basilar na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Reconhecê-lo é fundamental para compreender a responsabilidade histórica diferenciada, já que a maioria dos gases de efeito estufa (GEE) acumulados na atmosfera veio do Norte Global, a vulnerabilidade acentuada aos eventos extremos e a necessidade de ir além da distinção rígida entre Norte e Sul, reconhecendo a diversidade dentro do próprio Sul Global.
O BRICS ilustra bem essa diversidade. O bloco se coloca como representante do Sul Global, com grandes produtores de combustíveis fósseis, pois responde por 43% da produção mundial de petróleo e 53% das reservas de gás. Seus 11 países somam cerca de 48% das emissões globais de GEE, enquanto os pequenos países insulares mal chegam a 1% e estão entre os mais vulneráveis ao clima. Apesar das principais emissões dos países do bloco serem via combustíveis fósseis, o Brasil e a Indonésia têm como principal vetor as florestas e as mudanças no uso da terra.
Um olhar do Sul sobre a ação climática
Os dados apontam a importância de uma análise sul-centrada do tema, que considere essa diversidade. É o que busca o Observatório de Ambição Climática do Sul Global, que analisa oito países selecionados por sua relevância econômica, ambiental e social: Brasil, África do Sul, China, Índia e Indonésia (membros do BRICS), além de República Democrática do Congo, Colômbia e México. Ainda em 2026, serão incluídos Argentina, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Turquia.
O Observatório nasce da constatação de uma lacuna no acompanhamento contínuo e comparativo de políticas climáticas em países pouco monitorados. Combinando dados qualitativos e quantitativos, oferece análises acessíveis e rigorosas para o debate acadêmico, políticas públicas e ação da sociedade civil. Seus sete eixos de análise incluem perfil de emissões, matriz energética, transição justa, adaptação e as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), as metas de cada país no âmbito do Acordo de Paris.
O último relatório da UNFCCC sobre as NDCs indica que ainda é preciso acelerar significativamente a redução das emissões. O Climate Action Tracker (CAT) considera que, entre as NDCs com meta para 2035, apenas três são compatíveis com o objetivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento a 1,5 ºC, e a Nigéria é o único país do Sul Global entre elas. Entre os países mapeados pelo Observatório, nenhum possui NDC com meta para 2035 completamente alinhada ao Acordo, isso significa que ainda estamos longe de cumprir o compromisso assumido em Paris.

Mas a ambição climática não se resume apenas à mitigação, envolve também adaptação e transição justa. No tocante à adaptação, cinco dos oito países apresentaram planos de adaptação à UNFCCC. Em relação à transição justa, Brasil, Colômbia e Índia a definem de forma ampla, considerando as populações mais vulnerabilizadas, e Brasil e Colômbia a incorporaram em suas políticas climáticas. A África do Sul foi o primeiro país a incluir o termo transição justa em sua NDC e a anunciar Parcerias para uma Transição Energética Justa, seguida pela Indonésia.
O BRICS como agente de mudança positiva no clima
O BRICS, como bloco já estabelecido, tem um importante papel na cooperação e concertação da ação climática no Sul Global. Com 21 países, entre 11 membros (Arábia Saudita ainda não formalizou a sua adesão) e 10 parceiros , enfrenta o desafio de lidar com tensões internas como entre Índia e China, e Emirados Árabes Unidos e Irã em meio à crise do multilateralismo. Entretanto, na Cúpula indiana formou um consenso: a reforma das instituições internacionais e a ampliação do espaço do Sul Global nelas.
Então, por que o bloco não poderia ser também um “agente de mudança positiva” para a ação climática? Sabemos que há uma grande contradição, já que o BRICS é um bloco altamente “fóssil”, mas por seu tamanho, economia e representatividade, tem relevância como um espaço de diálogo e cooperação. Na Declaração de Nova Délhi, os países reconhecem que os combustíveis fósseis ainda têm seu papel, mas também existe a “necessidade de promover transições energéticas justas, ordenadas, equitativas e inclusivas e de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em consonância com nossas metas climáticas”.
Em 2025, sob a presidência brasileira, o clima foi prioridade, com forte presença na Declaração do Rio e com a assinatura de uma inédita Declaração sobre Finanças Climáticas, além de gerar consensos para a COP30. E existem mais oportunidades, com a presidência da Etiópia na COP32, em 2027, e com a possibilidade da China presidir a COP33.
Outro ponto que o bloco pode explorar mais nessa agenda, é o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). Para 2022–2026, o banco estabeleceu a meta de direcionar 40% de suas aprovações de financiamento a projetos de mitigação e adaptação, incluindo a transição energética. A estratégia para 2027–2031 já foi aprovada, mas ainda não divulgada; resta saber se a meta climática ficou mais ambiciosa. Os dados do Observatório mostram que há muito a avançar em ambição climática e ser um agente de mudança positiva envolve assumir compromissos mais ambiciosos e cumpri-los.
Além disso, ser um agente de mudança positiva envolve também uma perspectiva baseada em direitos: tão importante quanto o volume de recursos é a sua finalidade. Por isso, é fundamental fortalecer o NDB como motor do financiamento para a justiça climática. O banco pode adotar mecanismos de reparação, redistribuição e acesso a recursos que enfrentem desigualdades estruturais, pois transição energética, financiamento, ambição e justiça climática devem caminhar juntos, o que exige discutir também os destinos dos recursos e quem os administra. Na prática, isso significa estimular a participação territorial e comunitária e exigir consultas prévias, livres e informadas como critério de financiamento.
Ambição climática e responsabilidades diferenciadas
Os dados do Observatório mostram que há muito a avançar em ambição climática, apesar de iniciativas importantes em adaptação e transição justa. Ser um agente de mudança positiva envolve assumir compromissos mais ambiciosos e cumpri-los. Isso não contraria o princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas, tão defendido pelo BRICS e pelo Sul Global: cada país contribui conforme suas capacidades, mas é dever de todos combater as mudanças do clima.
Como espaço de expressão das prioridades do Sul Global, o BRICS tem a oportunidade de se afirmar como uma liderança positiva diante dessa crise. E esse trabalho começa dentro de casa: com metas mais ambiciosas dos próprios membros, que também levem em conta a justiça climática, e com o fortalecimento do NDB como motor de financiamento climático.
Maria Beatriz Mello – Pesquisadora da plataforma Socioambiental no BRICS Policy Center, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Maureen Santos – Coordenadora da plataforma Socioambiental do BRICS Policy Center, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Paula Sandrin – Professora Adjunta de Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Este texto foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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