Levantamento do Fórum Econômico Mundial e da Fundação Dom Cabral revela que sustentabilidade ainda não é foco das agendas globais
POR BÁRBARA VETOS
O modelo tradicional de crescimento econômico conhecido mundialmente já não está mais de acordo com a realidade. Estudo realizado pelo Fórum Econômico Mundial, em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC) no Brasil, sustenta que não é possível avaliar o crescimento dos países somente por critérios econômicos. Os resultados do trabalho The Future of Growth foram divulgados nesta quarta-feira (17/1) em uma entrevista coletiva de imprensa da FDC e foram apresentados simultaneamente no Fórum Econômico Mundial, em Davos.
Entre as principais motivações para a pesquisa estão a perspectiva incerta de futuro, pautada principalmente pelo desafio climático, e a dúvida de que um crescimento baseado exclusivamente na alta PIB seja realmente satisfatório para esse tipo de avaliação.
“Não adianta somente crescer, no caso específico brasileiro, por exportação de produtos agrícolas. A gente tem que começar a discutir a qualidade do que a gente está fazendo”, enfatiza Hugo Tadeu, professor e diretor do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da FDC. Para isso, a pesquisa estabeleceu quatro critérios como prioridades das nações: inovação, inclusão, sustentabilidade e resiliência.
Estudo propõe novos pilares para avaliar crescimento dos países
A partir de uma metodologia comparativa entre as nações e focada em qualidade, o Fórum Econômico Mundial, em parceria com a Fundação Dom Cabral, buscou analisar o desenvolvimento e crescimento econômico de 107 países. Ao todo, foram 84 indicadores selecionados entre mais de 400, e 100 executivos e gestores públicos entrevistados.
No critério inovação foi avaliada a capacidade de uma economia em absorver e evoluir diante de novos avanços tecnológicos, sociais, institucionais e organizacionais. O tópico inclusão olhou mais atentamente para o envolvimento efetivo dos cidadãos em oportunidades e benefícios.
O indicador de sustentabilidade serviu para verificar as estratégias ecológicas de uma economia dentro dos limites ambientais. Já a resiliência compreendeu o poder de resistência e recuperação de choques externos às crises financeiras.
Tendência atual não é de crescimento
A economia global tem crescido abaixo das expectativas. Na pontuação geral atribuída aos quatro critérios estabelecidos (1-100), a inovação foi o mais baixo entre os países analisados (45,2).
Segundo Tadeu, o crescimento está baseado, principalmente, em investimento, competência e inovação, sendo o último o motor para o desenvolvimento dos demais. Nesse critério, a Suíça mantém uma posição de destaque com a pontuação mais alta, 80,4. O país investe mais de 3% do seu PIB em pesquisa e desenvolvimento.
Em comparação aos outros fatores, inclusão foi o item de maior pontuação no relatório (55,9), indicando um esforço mundial para promover oportunidades igualitárias e na promoção de ações em busca da diversidade. A Suíça também obteve a melhor pontuação na categoria (77,89), com participação significativa das mulheres na política.
Já as notas de resiliência (52,8) e sustentabilidade (46,8) podem ser explicadas pela resposta conjunta dos países aos impactos socioeconômicos da pandemia e do compromisso global – ainda aquém do necessário – em relação à crise climática.
Em resiliência, Luxemburgo (72,57) alcançou a pontuação mais alta, fruto de uma economia diversificada e estável. Países como Chade (63,78), Jordânia (61,8) e Zimbábue (59,98) se destacaram com as melhores pontuações em sustentabilidade.
Para traçar um paralelo entre os diferentes países e, consequentemente, entre suas diferentes formas de desenvolvimento e crescimento, o estudo também estabeleceu a construção de sete arquétipos. Eles servem como um agrupamento de nações com características comuns, que foram definidas pelos próprios pesquisadores.
O Brasil faz parte dos arquétipos C e F. O primeiro reúne economias com crescimento moderado, mas equilibrado, e com desempenho acima da média em sustentabilidade. O segundo é um conjunto de países com crescimento impulsionado pela eficiência, desenvolvendo inovação, inclusão e resiliência em uma base simples com uma visão ambiental reduzida. Fazem parte deles países como Chile, Jordânia, Itália, Gana (arquétipo C), Índia, Colômbia, Chade, Nigéria, Paquistão e Congo (F).
“O que a gente está deixando claro é que nosso crescimento é médio e não sustenta futuro”
O Brasil tem o PIB per capita PPP (paridade poder de compra) de USD$16.402 (cerca de R$81.000) e foi considerado no relatório como um país do grupo de renda média alta. Durante o período de 2018 a 2023, registrou um crescimento de 1,22% no PIB. Em termos de qualidade desse crescimento, o país obteve pontuações de 41,8 em inovação, 55,3 em inclusão, 55 em sustentabilidade e 52 em resiliência. Os resultados não fogem da média global, mas estão distantes dos países ricos.
Entre os destaques positivos do Brasil, é possível encontrar elementos como disponibilidade de recursos hídricos, maior concentração de oferta de alimentos, infraestrutura de telecomunicações, e matriz energética brasileira.
No entanto, o país tem um desempenho muito abaixo do esperado em temas como propriedade intelectual, as chamadas patentes e patentes verdes. Além disso, a desigualdade financeira, a polarização política e a falta de adoção de uma agenda para upskilling (aperfeiçoamento de competências existentes) e reskilling (aquisição de competências totalmente novas) pelas empresas chamam a atenção negativamente.
De acordo com o professor e diretor da FDC, atualmente, o Brasil investe em quantidade, mas não necessariamente em qualidade. O país apresenta um dos piores índices de inovação. Ele defende a criação de um plano de Estado, e não de governo, para que essa agenda seja levada adiante e sirva uma estratégia de futuro para o país.
“O que a gente está deixando claro é que nosso crescimento é médio e não sustenta futuro”, reforça Tadeu. “A gente tem um PIB considerável, mas a nossa capacidade de reinvestimento para pautas relevantes a longo prazo é muito baixa.”
Sustentabilidade não é foco de países mais ricos
Apesar de ESG ser uma pauta em alta, o relatório aponta para uma baixa relevância dos índices de sustentabilidade na agenda de crescimento dos países, principalmente entre os mais ricos. Tadeu diz que pontuações revelam que ainda há muito greenwashing – uso incorreto de dados e marketing para propagar uma falsa adequação aos critérios ambientais.
“Os países que mais estão focando em sustentabilidade são os que estão sofrendo os efeitos das mudanças climáticas. São os países que estão entendendo que, se isso não for feito, provavelmente haverá um impacto severo em suas economias”, explica o professor.
Leia o estudo na íntegra aqui.
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