Alternativas ao fast fashion visam garantir sustentabilidade e dignidade nas relações humanas
POR BÁRBARA VETOS
Moda é história, arte, política, cultura, identidade, expressão, comunicação, autenticidade. Mas moda também pode ser sinônimo de consumismo, destruição, dor, desigualdade, condições análogas à escravidão. Como é possível que tantas representações positivas caminhem lado a lado com os impactos socioambientais que a indústria gera em todo o planeta? Parece conflitante – e, de fato, é.
Em meio a uma encruzilhada climática, a indústria busca se reinventar. Paulo Cristelli, gerente de sustentabilidade do Instituto Focus Têxtil, acompanha as inovações sustentáveis e pesquisas desenvolvidas no exterior e acredita que essa deveria ser a prioridade no país. “O Brasil tem um potencial muito grande, mas que ainda não está sendo devidamente aproveitado. Investimento e inovação podem transformar todo o mercado.”
A busca por uma indústria de moda mais sustentável tem várias vertentes – desde o consumo consciente, passando pela reciclagem e pelo reúso. Também abrange a redefinição dos processos fabris e a escolha das matérias-primas.
Uma tendência que deve ganhar força nos próximos anos é a fibra biobaseada – não possui origem fóssil e seu processo de fabricação gera menos impacto ao meio ambiente. Essas fibras podem ser combinadas com pigmentos reciclados e tinturas também biobaseadas. “O Brasil poderia se destacar muito, mas sinto que falta desenvolvimento para isso ainda”, lamenta. “A indústria hoje briga muito por uma questão de protecionismo, de não querer permitir que determinados tecidos entrem no país, quando, na verdade, deveria ter uma frente forte também brigando para trazer investimento.”
Cristelli chama a atenção para outras pesquisas que criam o fio de celulose com restos de comida. O intuito é não só explorar alternativas sustentáveis e inovadoras para a produção têxtil, mas também minimizar a geração de resíduos e os impactos que eles causam no planeta (leia mais na página 6).
Outra técnica que já tem sido aplicada no mercado é a reciclagem de fibras para a produção de novas peças. O processo de desfibragem transforma uma roupa que havia sido descartada em um item completamente novo. A solução já foi adotada pelo Grupo Malwee, que desenvolveu o projeto Fio do Futuro.
Os moletons produzidos chegam a ter 85% de fibras diversas em sua composição. O que, além de lidar com o problema do descarte incorreto – bastante danoso ao meio ambiente –, contribui para a circularidade da moda. De 2022 a 2024, a iniciativa arrecadou 7,4 toneladas de roupas usadas. Cada peça fabricada emite 44% menos CO₂ e consome menos de 33% de água.
De segunda em primeira mão
Na contramão do ultraconsumo, o universo dos brechós tem se expandido cada vez mais. De acordo com relatório do ThredUp, o mercado de roupas usadas cresceu 11% entre 2022 e 2023. Dados do Sebrae revelam que o Brasil tinha mais de 118 mil brechós ativos em 2023 – o que representa um aumento de 30,97% em relação aos cinco anos anteriores.
O consumo de segunda mão também acontece com força em plataformas on-line, como Enjoei, Repassa, Troc, OLX e Mercado Livre. Itens de luxo ou vintage têm ganhado espaço nesses marketplaces. De acordo com levantamento da Statista, o mercado de luxo de segunda mão movimentou US$ 4,9 bilhões no mundo em 2021. A projeção é que alcance os US$ 14,7 bilhões em vendas até 2027.
Marcas como Chanel, Gucci, Dior, Balenciaga estampam as vitrines virtuais, chamando a atenção de potenciais consumidores que um dia sonharam em fazer parte daquele universo. E os impactos são sentidos pelo planeta. O relatório Second Hand Effect (SHE), da OLX em parceria com a Adevinta, aponta que a comercialização de produtos de segunda mão evitou potencialmente 625.357 toneladas de emissões de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) no planeta. Isso corresponde a 5,6 milhões de voos de ida e volta entre São Paulo e Rio de Janeiro a menos ou a mesma quantidade emitida pela produção de 49 milhões de calças jeans.
O caráter danoso do fast fashion a longo prazo estimula o desenvolvimento de modelos de negócios mais sustentáveis. É o caso do slow fashion, inspirado pelo termo slow food, movimento que vai na contramão das redes de fast-food. Não é sobre uma produção propositalmente demorada, mas sobre respeitar as diversas etapas da produção e valorizar a mão de obra envolvida, produzindo no tempo em que deve ser feito. O modelo é muito anterior ao fenômeno acelerado que o mundo enfrenta, mas tem ganhado força nos últimos anos.
Baseadas na economia solidária, as cooperativas de costura são uma das frentes desse movimento. Essas organizações, em geral formadas majoritariamente por mulheres, têm recebido cada vez mais apoio profissional e capacitação para continuarem atuando em seus segmentos. É uma outra forma de fortalecer a manualidade e as tradições mantidas por pequenos grupos ao redor do país.
A Cooperativa de Costura Luiza Mahin, por exemplo, localizada em Salvador, tem como objetivo fomentar o empreendedorismo entre mulheres negras. A Coopa-Roca, cooperativa da comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, desenvolve produtos artesanais têxteis com foco em cultura e na economia criativa.
O foco de todas elas está longe de ser o fast fashion. Mas, sim, o desenvolvimento e a capacitação de pequenos negócios, de base comunitária e criativa, entendendo a sustentabilidade como um diferencial competitivo e agregando valor ao produto.
De geração em geração
Sustentabilidade na moda também é sobre o resgate das manualidades e dos saberes ancestrais, baseados em um modelo de produção em harmonia com a natureza. Um exemplo disso é o que fazem os povos originários do Brasil, com trabalhos manuais produzidos com fibras e o processo de tingimento natural, menos danoso ao meio ambiente. “Precisamos fortalecer os selos de origem no Brasil. Existem muitas questões culturais que podem ser exploradas e que podem virar assinaturas”, defende Paulo Cristelli, gerente de sustentabilidade na Focus Têxtil. Afinal, quanto conhecimento e expe-riência de vida não são perdidos durante o processo de automatização da produção?
De acordo com a Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), 87% dos profissionais que atuam com costura no Brasil são do sexo feminino. As mulheres são a maioria nas indústrias e no mercado informal. Muitas delas nunca fizeram um curso de design de moda na vida, o que não as impede de ter grandes habilidades manuais. A bagagem que elas carregam vem de família, de geração em geração, das vivências e memórias compartilhadas.
É com esse conhecimento que o mercado se transforma e se diversifica. O livro Do sertão a Hollywood, de Eliane Trindade, conta a história da estilista Martha Medeiros, que levou a renda brasileira ao exterior – a marca já foi usada por grandes estrelas, como Sofia Vergara e Beyoncé.
Inspiração regional
As tradicionais rendas conquistam novos espaços na moda
Com uma moda de forte inspiração regional, mas apelo global, Medeiros também busca promover a inclusão e a transformação social no sertão nordestino por meio da prática de sua costura. Para as trabalhadoras, a renda é muito mais do que uma técnica de costura. É sinônimo de trabalho e dignidade.
Cristina, uma das rendeiras entrevistadas para a produção do livro, conta que aprendeu a costurar aplicando a técnica de origem veneziana – que se mantém viva no Nordeste brasileiro – com sua mãe. Uma tradição intergeracional nos pequenos povoados do agreste. O que antes era visto como um trabalho desvalorizado, hoje traz qualidade de vida para o grupo de rendeiras.
São peças que demoram de semanas a um ano para ficarem prontas – mas isso está longe de ser uma questão. Afinal, qual é o motivo da pressa?

Revista ESG Insights nº 1 – Moda e sustentabilidade
Pra que tanta roupa? – Em meio a uma encruzilhada, a indústria tenta se reinventar
Planeta descartado – Lógica do fast fashion incentiva uma cultura de hiperconsumo e descarte: elementos incompatíveis com o futuro do meio ambiente
Escravos da moda – Do outro lado do mundo, ou em uma esquina perto de você, o trabalho forçado é usado para produzir os itens do seu armário
A um clique do consumo – Crescimento do comércio on-line estimula vendas por impulso e eleva participação do setor de moda no PIB
Um lookinho por segundo – TikTok impulsiona tendências no fast fashion e favorece o consumo exacerbado em busca da microssaciedade
Reinventando o futuro – Alternativas ao fast fashion visam garantir sustentabilidade e dignidade nas relações humanas
Germes de segunda mão – Roupas de brechó podem estar cheias de micro-organismos; veja o que é preciso saber
Afundando nas sobras – No dumpster diving, descarte de roupas feito pelas lojas tem outro destino: o guarda-roupa
