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ESG ganha importância com a crise (e depois dela)

Guilherme Teixeira, gerente de Finanças Sustentáveis da Sitawi, diz que ativos ESG se destacam pela resiliência

Guilherme Teixeira
Guilherme Teixeira, da Sitawi (foto: divulgação)

Não pense que a crise é momento de se concentrar só no “básico” e nas práticas usuais. Nem que é possível neste momento deixar de lado as estratégias de gestão e investimento atreladas a aspectos ambientais, sociais e de governança. Os números no período da pandemia de coronavírus mostram que as companhias mais conectadas aos princípios de ESG têm conseguido uma resiliência maior, com mais capacidade de enfrentar a crise. É o que afirma Guilherme Teixeira, gerente do programa de Finanças Sustentáveis da Sitawi.

Fundada em 2008, a Sitawi Finanças do Bem é uma organização social de interesse público que desenvolve soluções financeiras para impacto social e analisa a performance socioambiental de empresas e instituições. Engenheiro de produção com mestrado em Sustentabilidade, Guilherme atua há cinco anos na Oscip ajudando a desenhar instrumentos de gestão socioambiental de bancos comerciais, bancos de desenvolvimento e gestoras de private equity. Veja sua entrevista ao ESG Insights.

No final de 2019 e início de 2020, vários fatos agitaram o mercado com relação a temas ambientais, sociais e de governança. Por exemplo, o documento do Business RoundTable e a carta da BlackRock aos investidores. Você acha que, de fato, até o agravamento da pandemia, a questão ESG estava ganhando momentum?

Guilherme Teixeira – Essa é a palavra perfeita: estava ganhando momentum, uma força para se movimentar. Vejo o movimento de ESG nos investidores cada vez mais se tornando mainstream. É verdade que há muito tempo se diz isso, mas a gente tem cada vez mais evidências de que está virando mesmo.

Há o desenvolvimento de iniciativas e ferramentas em conjunto entre diversas instituições financeiras para avaliar risco ESG. Cada vez mais, cresce o mercado de finanças verdes. A gente vinha vendo o crescimento de green bonds de forma muito rápida e de outros mecanismos e instrumentos financeiros com uma pegada verde, como green loans. Cada vez mais a gente tinha a definição de princípios e padrões voluntários para esse mercado: Green Bond Principles, Climate Bond Standard, organizações de mercado de capital internacional colocando padrões para mecanismos financeiros verdes, com empréstimos verdes, empréstimo vinculados à performance ESG das companhias.

Essas iniciativas conjuntas de instituições financeiras e o desenvolvimento do mercado de finanças verdes eram uma evidência – e ainda são uma evidência – de que o mercado ESG está ganhando esse momentum.

A gente viu cada vez mais investidores mais tradicionais e empresas que não tinham um posicionamento nesse tema se posicionando. A carta da BlackRock é algo icônico. Provavelmente, a gente vai falar disso daqui a cinco anos ainda como marco. Ou do Business RoundTable – o fato de o stakeholder ser colocado no papel central e não só o sharehoder. Essas comunicações são importantes. São sinais para o mercado.

E há a regulação também. A gente via iniciativas da União Europeia – um grupo de finanças sustentáveis da UE trabalhando há alguns anos para o desenvolvimento de um roadmap de finanças sustentáveis. Mais recentemente, saiu a taxinomia de atividades verdes da UE. Certamente vai ter impacto para os próximos anos com relação à regulação, à transparência, para que o investidor consiga comunicar quanto ele está investindo em uma carteira verde, para que as empresas consigam mostrar quanto elas têm de atividades verdes. Surgiram regulações relacionadas à transparência de riscos climáticos. O Reino Unido, o Banco Central da Inglaterra, se posicionou com relação a isso. Assim como a França, com iniciativas requerendo que investidores informem o quanto as mudanças climáticas impactam suas carteiras e como esses riscos são geridos.

Está cada vez mais evidente para mais agentes econômicos a relevância das mudanças climáticas

Esse aspecto da regulação também nos leva a uma quarta evidência desse momentum que é a questão das mudanças climáticas. Está cada vez mais evidente para mais agentes econômicos a relevância das mudanças climáticas. Esse é um tema internacional, enquanto outros aspectos de ESG podem não ser tão materiais para determinadas localidades ou determinados tipos de empresa. Já nas mudanças climáticas a materialidade é muito clara: é o aumento da temperatura da Terra. É um tema que é mais fácil de ser comunicado e entendido internacionalmente e que requer uma ação internacional. Não adianta o Brasil ter um plano, se um país ao lado não tem um plano ambicioso de mitigação das mudanças climáticas.

Outros temas ESG são mais locais. Se uma empresa no Brasil não está respeitando os direitos trabalhistas, isso não necessariamente vai afetar um investidor na França, se não for um investidor dessa empresa brasileira. Mas as mudanças climáticas, sim. Se a gente tem grandes emissões de gases de efeito estufa no Brasil isso vai impactar a França, a Indonésia e assim por diante.

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Outra evidência desse momentum é que cada vez mais as pessoas têm acesso ao entendimento do papel do dinheiro delas. Assim como a gente viu surgir nos anos 80, e anteriormente, a figura de um consumidor mais ativista, consumidores que passaram a questionar suas decisões de compra, com o dinheiro não é diferente. Cada vez mais investidores vão tendo essa percepção.

Quando existe uma diversidade de opções de investimento, vão existir investimentos de maior risco por questões ESG e de menor risco. Investimentos que vão contribuir para intensificar os problemas climáticos, ou desrespeitar direitos humanos. E investimentos que vão na direção contrária, de mitigar as mudanças climáticas e promover uma economia mais justa e sustentável.

E o que vai acontecer no pós-pandemia. Essa crise vai ajudar a consolidar tudo o que você estava falando? Ou, pelo contrário, depois de um período de perdas ou ganhos menores causados pela paralisação da economia com a covid-19, os investidores vão querer “correr atrás do prejuízo” e apostar em qualquer investimento que tenha os melhores retornos de curto prazo?

Guilherme Teixeira – Certamente vai haver essas duas reflexões nos investidores: tanto a busca no retorno de curto prazo, para compensar perdas, quanto um outro olhar de que essa crise está totalmente conectada às questões ESG. A gente está falando de saúde, o quanto cada cidadão pode ser afetado pelas decisões de outros, como desafios globais, sociais e ambientais, precisam de ação coletiva.

Porém, quando se fala do investidor que vai buscar sobreviver na crise, entendo que vai ficar muito claro que aqueles investidores que estão colocando recursos em empresas a partir da incorporação de um olhar ESG vão encontrar ativos mais resilientes para a crise. Quem já faz isso, vai se beneficiar. Para quem ainda não faz isso, a crise é uma oportunidade de acrescentar esse olhar ESG.

O ESG não é só uma questão de ética. É uma questão de ótica

O ESG não é só uma questão de ética. É uma questão de ótica. Pode ter uma ótica ESG buscando retorno, não só de curto prazo como de longo prazo. É um retorno que é muito ligado à resiliência dessas companhias. A gente vê hoje empresas que já eram conhecidas por uma boa performance ESG ter uma maior resiliência.

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Faz sentido para o investidor, mesmo na crise, olhar para os aspectos ESG para mitigar perdas e para apostar em empresas que vão conseguir ter capacidade de reagir de uma forma melhor. Alguns estudos e evidências de curto prazo já mostram que fundos que incorporam a gestão ESG estão tendo uma performance melhor do que fundos que não incorporam essa ótica.

Você é otimista em relação às reflexões que os investidores vão tirar deste período?

Guilherme Teixeira – Certamente. Muitas lições a gente vai poder ver a partir de portfólios que já consideravam as questões ESG. Vários desses portfólios de investimento tiveram, ou vão ter, mais resiliência a essa crise do que outros portfólios.

Isso vai dar um sinal positivo da relevância dessa ótica ESG.

Nas conversas com investidores, o que é mais difícil: convencer do conceito em si ou lidar com o fato de que ainda não há a mesma grande quantidade de dados comparáveis como se tem nos investimentos tradicionais?

Guilherme Teixeira – As duas questões são relevantes. Mas o primeiro desafio é o maior.

É importante que o investidor veja valor em adicionar essa lente nas suas decisões de investimento. Investidores que já o fazem percebem o valor de ter essa análise, de ter uma diligência de ESG, de fazer perguntas adicionais para companhias investidas, de buscar ativos verdes.

Isso passa pela definição de uma tese de investimentos e de um esforço de incorporá-la. Demanda algum esforço de análise, para entender como uma empresa vai ser mais ou menos impactada por questões ESG e como ela está lidando com isso hoje.

Se o investidor dá sinais para as empresas executoras de projetos que essas questões ESG são importantes, essas companhias vão se organizar para ter essas informações

A partir dessa percepção de valor, fica muito mais fácil ter informações confiáveis e disponíveis necessárias para uma tomada de decisão de investimento. Se o investidor dá sinais para as empresas executoras de projetos que essas questões ESG são importantes, essas companhias vão se organizar para ter essas informações, para ter a sustentabilidade no centro da sua estratégia. E vai haver um fortalecimento do ecossistema, de iniciativas voluntárias, iniciativas de governo, iniciativas lideradas pelo próprio mercado, de disponibilização das informações.

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Por exemplo, no CDP cada vez mais há investidores e empresas aderindo e disponibilizando suas informações sobre mudanças climáticas. Tem o surgimento [em 2015] da Task Force on Climate-Related Financial Disclosures, para transparência de questões financeiras relacionadas às mudanças climáticas nos negócios.

Cada vez mais a gente vai ter esse tipo de iniciativa para padronizar e melhorar a qualidade das informações no mercado. A gente viu nos últimos anos um grande movimento nesse mercado – Bloomberg, Thompson, diversas organizações… – de terem também uma prática de divulgar informações relacionadas a questões ESG. Isso só existe porque há investidores interessados e percebendo o valor dessas questões.

Qual o papel do governo nessas definições todas? O governo brasileiro tem condições de ser protagonista nessas discussões?

Guilherme Teixeira – Vejo o papel do governo como o de um possível facilitador. Ele não precisa necessariamente enrijecer uma regulação, mas pode trabalhar para facilitar que investidores e empresas tenham olhar para questões ESG.

Nesse papel de facilitador, é óbvio que vai haver governos que vão assumir um papel de protagonismo e outros, não. Seria o caso de, pelo menos, não atrapalhar a agenda. Se não está facilitando, o ideal é que não atrapalhe.

Vejo outro ponto importante: o governo é muito grande. Ele não se resume a poucos nomes, poucas opiniões controversas. A gente tem ministérios que podem ter esse papel de protagonismo. O Ministério da Economia, por exemplo, lidera um projeto de avaliação da precificação de carbono junto ao Banco Mundial. A gente tem o Ministério da Infraestrutura. E essa infraestrutura precisa ser resiliente, alinhada a um respeito do uso dos recursos naturais. Outras áreas, como o Ministério da Agricultura.

O governo é muito grande e há quadros e instituições que têm capacidade técnica e de posicionamento para facilitar essa agenda, atrair investimentos verdes e passar segurança para investidores internacionais.

A gente viu crescer o protagonismo dos governos locais como facilitadores da agenda

Destaco também o protagonismo dos governos locais. É algo que foi visto muito nos Estados Unidos nos últimos anos e que a gente começou a ver no Brasil recentemente. Consórcios de governos estaduais, prefeituras que se posicionam em questões como mudanças climáticas e desmatamento. Esses governos têm capacidade de acessar fundos verdes internacionais, de dialogar com investidores e com empresas locais para que as questões ESG não sejam deixadas de lado. A gente viu crescer esse protagonismo dos governos locais como facilitadores da agenda.

Qual é o perfil do investidor que hoje já tem essa mentalidade ESG na cabeça?

Guilherme Teixeira – A gente vê ainda uma participação de grandes gestoras de ativos – grandes gestoras ligadas a bancos e investidores financeiros, também gestoras independentes – que percebem o valor da questão ESG, seja pela resiliência dos portfólios ou por confiar que a equação de risco-retorno vai ser mais benéfica com a ótica ESG.

Também existem gestores que acessam recursos de instituições internacionais, de investidores internacionais que requerem esse olhar. Por isso, a gestora no Brasil, ou na América Latina, que administra esses recursos internacionais precisa ter o olhar ESG.

Os bancos têm um agenda bastante avançada em relação a isso por entenderem que precisam ter um olhar ESG para não financiar situações de desmatamento, ou de trabalho escravo, por exemplo. E também precisam disso para captar recursos externamente.

A gente vê ainda uma figura adicional, que cada vez mais está se tornando comum, e que tem um potencial muito grande que são os family offices. Famílias que têm um grande capital a ser alocado, e que, não só por uma questão de ética, mas também por uma questão de ótica, passam a ter esse olhar ESG. Há um movimento muito interessante no âmbito dos family offices.

E entre as empresas, quais segmentos estão liderando essa agenda?

Guilherme Teixeira – As empresas que são de setores claramente verdes têm um posicionamento que é mais simples. O modelo de negócios dela está muito ligado à valorização de ativos ambientais. Estou falando, por exemplo, das empresas de geração de energias renováveis. A gente teve diversas emissões nos últimos anos de green bonds de companhias do setor de energia renovável. Em empresas do setor florestal e de papel e celulose o tema ambiental também está muito próximo da performance dessas companhias, o que facilita que elas saiam na frente.

Mas eu vejo oportunidades de setores que começam a se movimentar e que poderiam se mover de forma mais efetiva para captar recursos que têm um carimbo verde. Estou falando tanto de setores de infraestrutura de transportes, concessões, quanto de saneamento, gestão de resíduos. São setores que têm externalidades sociais e ambientais positivas que podem ter um bom conjunto de políticas e práticas para se posicionarem como líderes dessa agenda, captando recursos de investidores que têm um olhar ESG. Esses setores têm muito potencial de crescimento.

E não digo só aproveitam do ponto de vista oportunístico, de captar recursos, mas também no sentido de saber que uma boa gestão de comunidades e ambiental é algo que vai evitar riscos e permitir que elas sejam mais resilientes.

Você falou bastante das questões ambientais. As questões sociais e de governança vão ter um papel secundário nas discussões de ESG?

Guilherme Teixeira – Não diria que terão um papel secundário. Primeiro, as questões de governança são as que estão incorporadas há mais tempo pelos investidores tradicionais. O que a gente vê é claramente uma aceleração maior da cobertura das questões ambientais.

Questões sociais são também discutidas há bastante tempo, com uma proximidade da temática de gestão de risco das companhias, e têm times e políticas dedicados a esse manejo. Estou falando, por exemplo, de questões trabalhistas. Uma área de compliance vai olhar para essas questões sociais/trabalhistas. As áreas de recursos humanos já atentam para questões sociais. Outros stakeholders do lado social, como clientes e comunidades, têm nas empresas áreas específicas de relação com comunidades, atenção ao cliente.

As organizações vão ter de pensar nas pessoas mais do que nunca. A gente não vai ter empresas vencedoras em um ecossistema perdedor, ou que esteja destruído

Entendo que o cenário de covid-19 vai trazer uma atenção adicional a essas questões sociais, que poderiam estar ficando mais ocultas à sombra da emergência acelerada das questões ambientais.

De fato, as organizações vão ter de pensar nas pessoas mais do que nunca. Não só funcionários, como clientes e comunidades. A gente não vai ter empresas vencedoras em um ecossistema perdedor, ou que esteja destruído.

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