Corredores ecológicos, sombreamento, pavimentos permeáveis e refúgios climáticos: exemplos úteis
POR DIEGO TARLEY FERREIRA NASCIMENTO
As mudanças climáticas são um dos maiores desafios do século 21. Um estudo assinado por quase 12 mil cientistas de 153 países considerou o problema como uma emergência global. Mas, embora os impactos sejam globais, as consequências são mais severas nos países em desenvolvimento com menor capacidade de previsão e resposta, como o Brasil.
Por isso, é imprescindível esses países avancem em políticas públicas voltadas à mitigação das causas do fenômeno e adaptações — das infraestruturas e comunidades — que reduzam riscos e aumentem a resiliência. Nesse contexto, a Espanha tem se destacado com experiências de adaptação que podem oferecer lições valiosas para o Brasil.
Apresento aqui algumas estratégias de adaptação que identifico como especialmente oportunas ao contexto brasileiro, observadas durante o desenvolvimento de um pós-doutorado na Universidade de Barcelona, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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Cidades e sustentabilidade
Barcelona como laboratório de soluções
Barcelona, referência internacional em sustentabilidade urbana, tem investido nas últimas três décadas em soluções baseadas na natureza para enfrentar inundações, reduzir o impacto das secas e melhorar o conforto térmico urbano — desafios compartilhados por muitas cidades brasileiras.
Parte da estratégia da cidade se concretiza em seus superblocos, um projeto urbanístico que agrupa blocos de edifícios para criar espaços mais verdes, seguros, com menos tráfego de automóveis e mais amigáveis às pessoas.
Entre as iniciativas estão também os corredores ecológicos, telhados e paredes verdes, estruturas de sombreamento sobre ruas e praças e sistemas de drenagem urbana com áreas verdes e superfícies, pavimentos e substratos permeáveis, bem distribuídas por toda a cidade. Essas infraestruturas colaboram com a infiltração da água da chuva e melhoria do conforto térmico.
Outro exemplo notável, herdado desde a Idade Média, são as fontes públicas de água, presentes em Barcelona e em diversas cidades espanholas e europeias. Além de valor estético, elas garantem acesso à hidratação, essencial durante ondas de calor — cada vez mais frequentes e intensas.
A falta de acesso à água em espaços públicos no Brasil contrasta com essas práticas, o que impõe riscos à saúde, especialmente para idosos, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores expostos ao sol.
Refúgios climáticos: abrigo contra extremos de temperatura
Barcelona foi também pioneira na criação dos chamados refúgios climáticos, espaços abertos ou fechados, identificados por sinalização específica e com acesso livre, onde a população pode se proteger de temperaturas extremas, descansar e se hidratar.
Dados oficiais estimam que 90% da população da cidade esteja a menos de 10 minutos de caminhada de um dos 407 refúgios hoje disponíveis e que, em todo o país, existam mais de 2 mil desses espaços.
Os refúgios são particularmente importantes para públicos vulneráveis, como idosos, crianças, pessoas em situação de rua e com doenças crônicas. No entanto, um recente estudo aponta algumas limitações, como mobiliário e refrigeração inadequados e limitação dos dias e horários de acesso.
Além disso, muitos refúgios relacionados a espaços fechados (bibliotecas, igrejas, museus, repartições públicas, centros comerciais e estabelecimentos de ensino) ainda não são verdadeiramente inclusivos.
Em países como o Brasil, há relatos recorrentes de exclusão e discriminação racial e social nesses ambientes, o que limita seu uso por parte de populações marginalizadas. Já os refúgios em espaços abertos (parques, jardins, praças e pátios de escolas), por sua vez, enfrentam outra barreira no Brasil: a falta de infraestrutura, manutenção e segurança. Sem bancos, sombra ou segurança, a simples existência desses locais não garante que sejam frequentados — nem que cumpram seu papel como oásis climáticos.
Nem tudo são flores: os limites do modelo espanhol
É claro que a experiência espanhola também tem suas falhas. Em diversas cidades, especialmente nos centros históricos tombados como patrimônios da humanidade, o excesso de áreas cimentadas nas denominadas “praças duras” impede a implementação de intervenções verdes, como verificado em Madrid.
Em algumas cidades, como Córboda, Salamanca e Sevilha, constatam-se o uso de vasos com plantas ou árvores ornamentais e mesmo artificiais (verde fake), o que pouco contribui para a infiltração da água ou para a mitigação do calor.
Mesmo assim, o balanço é positivo. A Espanha mostra que é possível avançar na adaptação climática das cidades, com a atuação coordenada entre governos locais e sociedade civil. Essa ação integrada tem sido central para o êxito das iniciativas.
O que o Brasil pode aprender de fato
A realidade brasileira é distinta da espanhola em muitos aspectos, mas a experiência da Espanha mostra que é possível avançar com políticas climáticas integradas, aliando financiamento público, participação cidadã e soluções baseadas na natureza.
O Brasil enfrenta inundações recorrentes e ondas de calor intensas. Portanto, incorporar práticas como drenagem urbana sustentável, refúgios climáticos acessíveis e outras soluções baseadas na natureza de baixo custo pode trazer ganhos significativos, mesmo em curto prazo. Todavia, tais estratégias devem ser adaptadas às realidades sociais, econômicas e ambientais do país.
A crise climática é inquestionável e não mais uma abstração futura. A construção de cidades resilientes é, portanto, imprescindível para nossa sobrevivência. E quanto antes começarmos, menores serão os custos — humanos, ambientais e financeiros — que teremos de enfrentar.
Diego Tarley Ferreira Nascimento – Professor de Geografia Física e Geomática, Universidade Federal de Goiás (UFG)
Este texto foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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