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Aquecimento global deve influenciar na reconstrução de cidades no Sul

No Rio Grande do Sul, mais de 540 mil pessoas estão desalojadas (Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini)

Especialistas dizem que a reconstrução de moradias, lojas e ruas deve considerar o atual cenário de mudanças climáticas, tornando os espaços funcionais

POR RAQUEL MIURA

A reconstrução das áreas destruídas no Rio Grande do Sul vai colocar à prova não apenas a capacidade, mas principalmente a vontade política de transformar de fato áreas urbanas e rurais em territórios resilientes, condição importante para evitar ou amenizar novas tragédias. A comoção diante do desespero de quem teve bens e memória arrastados pela enchente terá de ser transformada em ações concretas.

O Brasil já viveu outras tragédias recentes, como deslizamentos na serra fluminense, enchentes na Bahia e mesmo inundações no Sul do país. Esses episódios ensejaram algumas mudanças pontuais, porém a ausência de uma alteração estrutural a ponto de tornar as áreas adaptáveis a eventos climáticos extremos levanta a dúvida se agora, diante de uma situação de escala maior, que atingiu quase todo um estado, haverá uma mudança.

“Sociedades resilientes são aquelas que aprendem com as suas próprias tragédias, mas precisa de vontade política para que essa transformação aconteça”, afirmou à Rádio França Internacional (RFI) Diego Pereira Lindoso, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília. “Com base nesse histórico de outras tragédias, eu sou um pouco cauteloso em afirmar que vai haver um aprendizado, apesar de reconhecer que a dimensão da catástrofe do Rio Grande do Sul tem potencial para representar um ponto de inflexão.”

Adaptação às mudanças climáticas

A visão de que a água da chuva enche um afluente que corre e deságua num único ponto pode até parecer natural, mas até isso evidencia o equívoco da atuação humana. A água da chuva em boa medida deve infiltrar o solo e ser retida pela própria vegetação. Assegurar condições para que isso volte a acontecer é o que a reconstrução terá de buscar.

“A adaptação das cidades precisa levar também em conta o uso da terra, a cobertura do solo nas bacias hidrográficas, como, por exemplo, a bacia hidrográfica do Rio Guaíba. É que, mais do que cidades adaptadas ou cidades esponja, nós precisamos pensar territórios adaptados e territórios esponja frente ao cenário de mudança do clima”, explicou Lindoso.

A bióloga e pesquisadora Mercedes Bustamante também conversou com a RFI e explicou que o contexto das mudanças climáticas maximiza carências e gargalos. “Todas as infraestruturas precisam considerar sua adaptação às novas condições associadas ao aquecimento global. Nesse processo, também precisamos olhar para as soluções de velhos problemas que são amplificados pela crise climática, como o saneamento básico e construções populares em locais seguros.”

“Mapear onde estão as novas áreas de risco, avaliar solos, topografia e hidrografia. Soluções devem considerar paisagens conectadas e multifuncionais. Adicionalmente, os serviços públicos, a economia e as redes de apoio social devem estar contempladas no processo de reconstrução. Deslocar comunidades sem prover as condições de vida adequadas e socialmente justas contribuirá para novos problemas”, alertou Bustamante.

Agenda ambiental para reconstrução de cidades

É justamente esse o ponto que autoridades deverão considerar para reerguer bairros e, em alguns casos, cidades inteiras que foram alagadas. “A pergunta sobre se o Brasil reúne condições de implementar cidades adaptadas ou resilientes ao clima coincide também com a pergunta se o país está disposto a enfrentar o problema do acesso à cidade, o problema da especulação imobiliária nas grandes cidades, a exclusão social e o déficit habitacional”, disse Lindoso.

No Rio Grande do Sul, são mais de 540 mil pessoas que tiveram de deixar suas casas e estão alojadas em residência de parentes ou amigos, além das 77 mil que estão nos abrigos públicos. “Esses números, que são preliminares, dão uma ideia da população que estava exposta a um evento extremo como esse. Então podemos argumentar que, sempre quando for possível, a reconstrução, tanto das casas, quanto do comércio e das indústrias, deve ser feita em áreas de baixo risco”, disse o professor. Para ele, no entanto, tal mudança não pode ser de cima para baixo, mas mediante negociação com a população afetada.

“As pessoas têm vínculos afetivos, identitários com o lugar, por isso tem que ser construído, negociado com as populações afetadas. Esses novos lugares precisam garantir dignidade, com infraestruturas e serviços básicos urbanos integrados à cidade. Em outras tragédias brasileiras, famílias removidas retornaram, mesmo com a vulnerabilidade, porque esses aspectos não foram contemplados”, alertou Lindoso.

Além de participar dos debastes como figura ativa na reconstrução, o eleitor também será peça importante na forma como a pauta ambiental será tratada daqui para frente pela classe política. “Já observamos que o discurso negacionista permanece, sobretudo no Legislativo nas três esferas, nacional, estadual e municipal. O papel da sociedade civil e do setor privado será chave para demandar que legisladores e gestores considerem com seriedade e capacidade técnica que a mudança do clima já é o presente”, destacou Mercedes Bustamante.

Esta reportagem foi publicada originalmente na Rádio França Internacional. Ver o conteúdo original.

Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini
No Rio Grande do Sul, mais de 540 mil pessoas estão desalojadas

 

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