O foco na retirada progressiva do uso dos hidrocarbonetos fósseis não pode desconsiderar que eles são insumos para o setor importante da petroquímica
POR SUZANA KAHN
Independentemente do fato de que a maior parte das emissões de GHG (Greenhouse Gases ou Gases de Efeito Estufa) do Brasil é proveniente do desmatamento e de atividades agrícolas, há uma tendência de participação crescente das emissões do setor de energia. Isto porque há um natural aumento de demanda por conta do crescimento econômico, mas também devido ao avanço do uso de inteligência artificial, internet das coisas e outras tecnologias digitais, fazendo com que se passe a ter enormes volumes de dados sendo processados em “data centers”, que são grandes consumidores de energia.
O equacionamento do aumento da oferta de energia e a redução das emissões de GEE (gases de efeito estufa) não é trivial. A boa notícia é que o Brasil oferece múltiplas opções de geração de energia com baixa emissão de carbono – desde os aproveitamentos hidrelétricos, alternativa já usada em larga escala no País, passando pelas opções eólicas e solar, até a nuclear, com os pequenos reatores que são mais seguros. Ainda há que se melhor aproveitar o potencial da energia dos oceanos, que pode ser originada dos movimentos das ondas, amplitude de maré, correntes e gradientes térmicos.
No entanto, o processo de descarbonização do setor de energia não se limita à geração de energia de baixo carbono. É necessário analisar toda a cadeia energética, desde a fonte primária de energia até o uso final. São várias etapas envolvidas, como a produção, distribuição, logística e a infraestrutura. Ou seja, para se ter um bom resultado é necessário um planejamento integrado de toda a cadeia.
Descarbonização precisa ser justa, ordenada e equitativa
O planejamento energético do Brasil deve estar alinhado com as orientações das Conferências das Partes (COPs), em que o compromisso é de se promover uma transição energética justa, ordenada e equitativa, o que torna a solução da equação de descarbonização de energia ainda mais complexa.
A transição justa pressupõe, principalmente, que não haja perdas de postos de trabalho, abrangendo também a requalificação da mão de obra e a garantia de remunerações adequadas. Já uma transição ordenada pressupõe segurança energética, ou seja, um equilíbrio entre demanda e oferta, com a manutenção dos preços de energia. No caso da transição equitativa, o que se almeja é uma distribuição proporcional do custo e benefício da transição energética entre os países e regiões.
Dada a sua matriz energética limpa, o desafio do Brasil está muito mais ligado a uma transição energética justa do que a transição energética “per se”. Portanto, não podemos dissociar a questão ambiental e climática do desenvolvimento socioeconômico de regiões menos favorecidas. Desta forma, é essencial que haja um planejamento de curto, médio e longo prazo para garantir uma transição em que toda a população se beneficie. Assim, há que se fazer uma gestão eficiente dos recursos energéticos do país, mantendo a renovabilidade e a segurança do sistema.
Sem o planejamento, corre-se o risco de que a transição energética fique desbalanceada. Mantendo-se o foco somente na retirada progressiva (“phasing out”) do uso dos hidrocarbonetos fósseis, se desconsidera outro uso desses hidrocarbonetos que são insumos para um importante setor da economia que é a petroquímica.
Há necessidade de soluções coletivas
A cadeia da indústria petroquímica, a partir de petróleo ou gás natural, nos fornece uma série de produtos essenciais tais como fertilizantes, embalagens, fios, cabos, conexões, isolantes, borrachas, autopeças, têxteis, produtos de higiene e de limpeza, tintas, fibras, eletrônicos, entre vários outros. A construção civil é um dos setores que mais consome produtos oriundos da petroquímica, e com o aumento e urbanização crescente, espera-se que esse setor continue demandante.
A transição energética atual é mais complexa do que as anteriores, pois as que promoveram o uso do carvão no lugar da madeira e do petróleo e gás natural substituindo o carvão foram motivadas pela eficiência econômica e não pela necessidade de descarbonização. Outro agravante é que a solução deve ser coletiva, não bastando uma única região reduzir as suas emissões de carbono. Adicionalmente, é necessário que se reduza a enorme desigualdade social mundial. Vale lembrar que tais desigualdades também se manifestam entre as diferentes classes sociais, em que populações de baixa renda são desproporcionalmente impactadas, apesar de contribuírem menos para as emissões.
Dito isso, somente com o planejamento energético que contemple todas as especificidades do uso da energia na sociedade é que se pode ter um processo de descarbonização que seja sustentável.
Suzana Kahn – Professora de Engenharia e diretora da Coppe/UFRJ.
Este texto foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons, em parceria com a revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel. Leia o artigo original.
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