Produzir a partir de uma lógica regenerativa é o conceito por trás da economia circular
POR BRUNO SELES
Você já parou para pensar no que acontece com um produto depois que ele é descartado? Em vez de ir direto para o lixo, e depois para um aterro, ele poderia voltar à cadeia produtiva. É disso que trata a economia circular — um modelo que busca reduzir o desperdício e transformar o jeito como produzimos, consumimos e descartamos.
E o mais curioso: mesmo sem muito apoio do governo, empresas brasileiras estão prosperando com essa lógica. Uma pesquisa publicada no Journal of Environmental Management revela como empresas brasileiras têm conseguido aplicar práticas de economia circular, mesmo enfrentando obstáculos regulatórios e institucionais.
A pesquisa foi conduzida por especialistas da Unimar Business School, da Universidade de São Paulo (USP) e da francesa EM Normandie Business School. O estudo analisou como certas capacidades internas das empresas influenciam a adoção de práticas circulares, e como isso impacta diretamente no desempenho e na resiliência organizacional.
O que é economia circular?
A economia circular propõe um caminho oposto ao modelo tradicional de “extrair, produzir, consumir e descartar”. Em vez de explorar recursos naturais de forma contínua e gerar resíduos, a proposta é criar um sistema regenerativo, onde os produtos, materiais e recursos são mantidos em uso pelo maior tempo possível. Essa abordagem se baseia em princípios como:
- Reduzir o uso de matérias-primas virgens.
- Reutilizar e consertar produtos.
- Reciclar e transformar resíduos em novos recursos.
- Repensar o design para que os produtos já nasçam circulares.
No nível das empresas, isso se traduz em práticas como:
Ecodesign: por exemplo, produtos pensados desde o início para usarem componentes ambientalmente sustentáveis, serem reutilizados ou reciclados.
Logística reversa: recolher produtos após o uso para reaproveitamento ou descarte adequado.
Sistemas de produto-serviço: em vez de vender um produto, oferecer o uso dele como um serviço.
Economia circular nas empresas
Alguns exemplos nos ajudam a entender melhor o que é economia circular. A Whirlpool, nos Estados Unidos, oferece máquinas de lavar por assinatura. A empresa continua dona dos equipamentos, faz a manutenção e reaproveita os componentes no fim da vida útil. No Brasil, a Boomera transforma embalagens plásticas de difícil reciclagem — que normalmente seriam descartadas — em matéria-prima para novos produtos, como lixeiras, baldes e cabides plásticos, entre outros.
Segundo uma estimativa feita em 2015 pela consultoria Accenture, a economia circular pode gerar até US$ 4,5 trilhões em valor econômico no mundo até 2030. No Brasil, mais de 76% das indústrias já adotam ao menos uma prática circular, mesmo sem uma política nacional estruturada para isso.
Apesar de seus benefícios, adotar esse modelo exige superar barreiras financeiras, operacionais e regulatórias — especialmente em países emergentes como o Brasil, onde muitas empresas atuam sem incentivos ou apoio governamental.
Os pesquisadores aplicaram uma survey com 111 empresas brasileiras que adotam pelo menos uma prática circular. O objetivo foi identificar como as capacidades organizacionais internas se relacionam com o desempenho empresarial e a circularidade. Além disso, os pesquisadores realizaram entrevistas com gestores de setores que dependem diretamente de práticas circulares, como os de reciclagem e remanufatura.
As capacidades internas das empresas — como inovação, gestão estratégica e articulação com parceiros — são fundamentais para uma transição bem-sucedida à economia circular.
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Empresas que cultivam essas competências conseguem superar a ausência de incentivos externos e implementar modelos circulares de maneira eficaz.
Um dos pontos mais surpreendentes do estudo é que a falta de apoio governamental não tem impedido o avanço da economia circular. O governo brasileiro ainda está dando seus primeiros passos rumo à economia circular. Um exemplo recente foi a criação do Fórum Nacional de Economia Circular, que tem a missão de acompanhar, avaliar e orientar a implementação da Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC), coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Mesmo em um ambiente com um “vácuo institucional”, sem regulamentações e incentivos específicos, empresas estão adotando práticas circulares como estratégia de competitividade e diferenciação no mercado.
Além disso, os resultados da pesquisa mostram que essas práticas geram ganhos concretos: maior eficiência operacional, redução de custos e, principalmente, aumento da resiliência organizacional. Empresas circulares estão mais preparadas para enfrentar crises, como a escassez de insumos e oscilações econômicas, pois conseguem reaproveitar materiais e inovar em seus modelos de negócios.
Desafios e recomendações
Apesar do sucesso de algumas empresas, a pesquisa também aponta obstáculos importantes. A burocracia, a ausência de políticas públicas eficazes e a falta de incentivos fiscais dificultam a adoção da economia circular em larga escala. Para mudar esse cenário, os autores recomendam:
- Criação de incentivos fiscais para empresas circulares.
- Revisão de leis que dificultam a remanufatura e a reciclagem.
- Estímulo à cooperação entre empresas, universidades e o setor público.
Economia circular como estratégia de futuro
A economia circular pode ser um diferencial competitivo importante para empresas brasileiras, mesmo em ambientes desafiadores.
O estudo mostra que a resiliência organizacional é diretamente fortalecida pela circularidade. Enquanto o governo não avança em regulamentações mais modernas, cabe às empresas liderarem essa transformação, investindo em inovação, parcerias e modelos de negócio mais sustentáveis. Recentemente, foram lançadas uma série de normas técnicas ABNT NBR ISO59004, 59010 e 59020, que podem ajudar as empresas a implementar práticas da economia circular.
A transição para uma economia circular nos países emergentes exige uma combinação de vontade política, incentivos e colaboração entre todos os setores da sociedade.
A economia circular não é só uma tendência, é uma oportunidade concreta de negócios e um caminho necessário para um futuro sustentável.
Bruno Seles – Coordenador dos cursos de graduação em Administração e Ciências Contábeis da Unimar Business School, na Universidade de Marília (Unimar).
Este texto foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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