Viver é gerenciar o consumo do tempo. Qual o espaço do trabalho nessa balança?
“Oh, preguiça, mãe das artes e das nobres virtudes, sê o bálsamo das angústias humanas!”
Paul Lafargue (1842-1911)
Todos os anos, desde 2015, em 19 de março, o Instituto Lumière promove um interessante evento em sua sede, em Lyon, França. Uma câmera fixa colocada a pouca distância registra uma sequência de pessoas saindo do prédio e dispersando-se pela rua. São trabalhadores, mas também crianças, casais, curiosos em geral. Trata-se de uma reencenação daquele que é considerado o primeiro filme do mundo, A saída dos trabalhadores da fábrica Lumière, registrado supostamente no mesmo 19 de março, em 1895.
O que a comparação dessas imagens separadas no tempo por mais de um século tem a dizer sobre o mundo do trabalho? Louis Lumière parece captar, em menos de 50 segundos de filme, toda a hierarquia e rigidez do ambiente industrial do século 19. Primeiro, sai o pessoal do “chão de fábrica” – majoritariamente mulheres. Depois, os engravatados das hierarquias superiores – majoritariamente homens. Estão sérios em sua maioria e parecem não notar a câmera (ou, eventualmente, foram orientados a isso).
Na versão do século 21 a saída é alegre e festiva. Como uma recriação livre e sem motivação documental, as pessoas agem de forma completamente diferente: aparecem sorrindo, interagem entre si e com a câmera, muitas são acompanhadas por crianças. De certa maneira, a atuação feliz, leve e performática pode, despretensiosamente, trazer um paralelo com o que buscamos hoje para o mundo do trabalho. Afinal, o entendimento contemporâneo mais comum é de que não basta trabalhar – é preciso se satisfazer com ele, ser feliz e atuar com “propósito”.
Uma coisa parece não mudar entre os séculos: o trabalho continua como organizador do nosso consumo de tempo. Tanto no filme original quanto nos atuais, é claramente ele – o tempo do trabalho – que determina a vida das pessoas. Hora de chegar, hora de sair. Hora de trabalhar, hora de descansar. Tique-taque.
Ainda que na maioria dos cenários o tempo de nossa vida continue sendo gerido pelo empregador, isso não significa que aqueles que trabalham “por conta própria” ou em home office não sofram a mesma pressão. Mais do que o patrão, quem dita a alocação do tempo individual hoje é a necessidade de desempenho.
“A sociedade do século 21 não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais ‘sujeitos da obediência’, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos”, diz Byung-Chul Han em seu livro Sociedade do cansaço. Troca-se a negatividade da pressão disciplinar tradicional por uma suposta positividade da pressão pelo desempenho. Resultado: depressão, angústia, burnout. “A depressão é o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade”, diz Han.


Trabalho, o senhor do tempo
Ok, o trabalho nos deixa sem tempo para o “resto” da vida e muitas vezes nos adoece (leia mais na reportagem O outro lado do trabalho). Mas o que seria da nossa vida sem ele? Numa sociedade em que o indivíduo é valorizado por seu poder de produção e de consumo, pelo desempenho, tentar fugir a essa lógica parece quase um crime.
“O pensamento vazio dos brancos não consegue conviver com a ideia de viver à toa no mundo, acham que o trabalho é a razão da existência”, alerta Ailton Krenak em seu livro-manifesto A vida não é útil.
Nem sempre foi assim, é verdade. Na Grécia antiga, o trabalho era altamente menosprezado. Somente os escravos pegavam no batente; os “homens livres” cuidavam do corpo e da mente. Mas será o amor ao trabalho “uma loucura”, como diz Paul Lafargue? Qual é o sentido, então, de passarmos no dia a dia mais de metade do nosso tempo acordado no trabalho?
“Descansar é saúde”, diz um velho provérbio espanhol. Mas o ócio ou o descanso são conceitos que só têm sentido frente a seus opostos – atividade, cansaço, ação, trabalho –, estejam eles ligados ou não à lógica de produção capitalista. Se não há atividade, não há como haver ócio. Estando descansado, não há como tirar umas horas para descansar.
Há mais de 30 anos Domenico de Masi falava da necessidade de equilíbrio entre trabalho, estudo e lazer, em seu livro Ócio criativo. Um equilíbrio que as tecnologias e as redes sociais parecem combater fortemente. Elas pedem atenção constante – e acabam por gerar o contrário, uma cultura do déficit de atenção. Estamos presentes em todos os espaços ao mesmo tempo, graças às mídias sociais e à tecnologia. Mas estamos sempre ausentes nessa presença, pela crônica falta de concentração e de atenção.
Pense bem: no tempo em que leu este texto, você poderia ter percorrido 100, talvez 200 posts e reels nos seus feeds. Os posts já estariam agora esquecidos em sua memória. Poderia, também, ter simplesmente passado um tempo agradável sob o sol de verão ao lado da pessoa que ama, lendo um livro ou jogando conversa fora com um amigo – e essas lembranças permaneceriam bem vivas.
Como diria Guimarães Rosa, “o que lembro, tenho”. Controlar o uso do tempo é controlar as lembranças – ou os esquecimentos. Porque, já que a vida é finita, o melhor que podemos fazer é usar bem o nosso tempo.

Revista ESG Insights nº 3 – O mundo do trabalho
Trabalhar é pagar boletos. E o que mais? – Carta ao leitor
O futuro do trabalho – Em meio a mudanças e incertezas, o mercado e os trabalhadores se reinventam
Ninguém quer mais trabalhar – Ou ninguém quer mais trabalhar sob as atuais condições? Como o conflito de gerações atrapalha na profissão
Desassossegados do mundo, uni-vos – Viver é gerenciar o consumo do tempo. Qual o espaço do trabalho nessa balança?
O que sobra do agora – A existência em pequenas brechas: quantos stories cabem em uma vida?
O outro lado do trabalho – Quando o emprego deixa de ser motivo de satisfação pessoal e se torna um fardo – com impactos severos
Liderança humanizada – A compaixão como estratégia para gerar relevância e sustentabilidade
Os profissionais do futuro na era da IA – A tecnologia é ameaça ou oportunidade no mundo do trabalho? Ou ambas?
Uma lei, várias realidades – Informalidade, pejotização e descumprimento de regras são desafios da legislação
A-Z das discriminações e preconceitos – Dicionário das práticas obtusas e persistentes
Humildade não paga conta – Uma conversa franca com Fred Albuquerque, porta-voz informal e senso crítico da Faria Lima



