Eniac, o primeiro computador, em 1946: início do período de convivência (e dependência) do homem com a tecnologia (Foto: Dinter, 1973)

A tecnologia é ameaça ou oportunidade no mundo do trabalho? Ou ambas?

A linha de montagem industrial de Henri Ford, no início do século 20… A popularização dos microcomputadores, a partir dos anos 1980… A disponibilização pública do ChatGPT, em novembro de 2022… Mais uma vez, o ciclo de incertezas se repete para o trabalhador, por conta do desenvolvimento tecnológico. Afinal, seremos – ou estamos sendo – substituídos pelas máquinas?

De acordo com dados de 2025 da consultoria LCA 4Intelligence, 31,3 milhões de empregos no país poderão sofrer impactos devido à IA. Destes, 5,5 milhões de trabalhadores correm risco de terem suas funções completamente automatizadas. Um estudo da Randstad Research de 2025 estima que 9,7 milhões de postos de trabalho – cerca de 9,5% dos empregos atuais – sejam potencialmente automatizáveis, especialmente aqueles que contam com tarefas repetitivas, administrativas e de processamento de informação.

Para Rodolfo Fücher, vice-presidente do conselho da Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes), por mais que haja desafios, o ser humano sempre foi capaz de se adaptar e encontrar sua utilidade em meio a grandes mudanças. “Aqueles que conseguem explorar melhor os benefícios que as tecnologias trazem podem ser mais bem-sucedidos.”

Assim como ocorreu com a chegada dos computadores aos escritórios, os principais impactados por essa nova onda de inovações são pessoas com menor grau de escolaridade e qualificação e profissionais que veem a IA chegando ao seu ambiente de trabalho, mas não se sentem incluídos no processo. Dados da pesquisa TIC domicílios, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, mostram que a proporção daqueles que utilizam a IA chega a 69% na classe A e cai para 16% nas classes D e E.

Segundo Ruy Braga, sociólogo, especialista em sociologia do trabalho e professor da Universidade de São Paulo (USP), a inteligência artificial configura-se como uma forma avançada de automação, mas que não necessariamente será capaz de diminuir o abismo que há entre os profissionais mais e menos qualificados. “A tendência é de que tenhamos uma polarização do mercado de trabalho entre um grupo muito qualificado, que consegue manter controle sobre suas qualificações, e um setor crescentemente precarizado, que não tem essa mesma capacidade.”

Várias profissões já vêm sofrendo impactos da crescente automação – basta ver a rápida substituição de profissionais por máquinas nos caixas de supermercados e estacionamentos.

Uma classe em risco, também, é a dos entregadores de aplicativo. Entre 2022 e 2024, o número de profissionais na área aumentou 18% e hoje o país conta com 455,6 mil entregadores, de acordo com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Apesar de seguir em crescimento, esse é um segmento que pode regredir com a automação e a IA. O iFood, por exemplo, já realiza entregas com drones em Sergipe. Em vários países do mundo issotambém já acontece, assim como o uso de táxis e mesmo ônibus autônomos.

“A precarização já é bastante visível com o crescimento da IA. Isso aprofunda desigualdades e torna o futuro incerto para os trabalhadores, que passam a ter menor poder de barganha”, avalia Braga.

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O futuro da IA

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) revela que, entre as empresas que usam IA no dia a dia, 76% afirmam ter algum programa de requalificação ou de capacitação dos trabalhadores. “Hoje, as grandes empresas estão focadas em desenvolver habilidades”, explica Ana Plihal, executiva de Soluções de Talento do LinkedIn no Brasil.

Segundo ela, a tendência é de que os gestores deixem de contratar candidatos com base no cargo e passem a escolher com base em suas competências – que podem ser aperfeiçoadas. “É uma forma de impulsionar a carreira sem se prender a títulos. Talvez você não seja um analista, mas você tem características que podem ser trabalhadas para que você se torne um.”

De acordo com um relatório da Microsoft em parceria com o LinkedIn, a contratação de profissionais técnicos com habilidades em IA aumentou 323% nos últimos oito anos. “Isso muda a forma como eu recruto, como desenvolvo essas competências internamente e como eu construo meu valor no mundo profissional”, comenta Plihal.

Essa mudança na dinâmica do mercado também está atrelada à produtividade. No Brasil, 87% dos profissionais acreditam que IA pode ajudar a aprender novas habilidades e 43% acreditam que a IA ajudará a aumentar sua produtividade e eficiência, segundo a pesquisa Global hopes & fears, da PwC. “Hoje você está usando a inteligência artificial como uma ajuda, como apoio, mas futuramente você vai ser como uma colega de trabalho”, diz Fücher.

Segundo a executiva do LinkedIn, a expectativa é de que os profissionais tenham ganhos significativos com o avanço dessas tecnologias, principalmente na economia de tempo e otimização das tarefas. “Todo mundo deveria estar usando inteligência artificial hoje”, incentiva o vice-presidente da Abes.

“É uma parte do letramento tecnológico dentro das corporações. Precisamos explorar mais os benefícios da IA para podermos usufruir das oportunidades e riquezas que ela traz.”

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