Sul Global precisa de novas estratégias para evitar que revolução digital da IA em países ricos pressione recursos naturais e ecossistemas
POR FELIPE ARANGO GARCÍA
A inteligência artificial (IA) tem sido vendida como a grande inovação do século 21 – uma tecnologia capaz de revolucionar todos os setores e apoiar até mesmo a luta contra as mudanças climáticas. Já se fala, por exemplo, que a IA pode otimizar a integração da energia solar e eólica em “redes inteligentes”, ajudando a reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
Porém, há outro lado nessa história: os data centers (centros de processamento de dados com supercomputadores) usados para treinar, implantar e executar modelos de IA consomem bastante energia e geram emissões associadas às suas operações. Na luta contra as mudanças climáticas, um cálculo precisa ser feito: os benefícios da IA superam seu impacto negativo?
Dúvidas para o futuro
Os data centers que dão suporte à IA e a outros serviços digitais consomem enormes quantidades de energia. Atualmente, em escala global, isso representa apenas 1% da demanda por energia elétrica. Mas o que vai acontecer se a IA continuar a se expandir? E o que pode dar errado?
Cenários otimistas preveem que a eficiência energética de softwares e hardwares podem manter sob controle o crescimento explosivo da demanda por energia. Um exemplo disso é o novo sistema Blackwell da Nvidia, maior fabricante global de chips para IA. O processador com IA generativa é, segundo a empresa, até 25 vezes mais eficiente em termos de consumo energético se comparado aos modelos anteriores. Apesar disso, o novo sistema gasta bem mais energia do que seus antecessores, consumindo até 1.200 watts por unidade.
Outros cenários argumentam que a sofisticação dos modelos de IA virá acompanhada de um consumo exponencial de energia: a IA generativa desenvolvida com base em grandes modelos de linguagem, por exemplo, requer até 30 vezes mais energia durante a fase de treinamento do que um modelo de IA tradicional. Por esse motivo, estima-se que uma consulta ao ChatGPT consuma até dez vezes mais eletricidade do que uma pesquisa no Google.
Investimentos em alta e novos riscos
Os usos cada vez mais complexos e intensivos da IA, como a criação de vídeos a partir de comandos de texto, exigirão grandes data centers capazes de suportar demandas de energia de mais de 100 megawatts – potencial consumo de eletricidade equivalente à energia necessária para abastecer até 400 mil veículos elétricos por ano. As grandes empresas de tecnologia estão se preparando para isso: segundo dados de 2023 da Agência Internacional de Energia, as empresas como Google, Amazon e Microsoft fizeram, juntas, investimentos de capital superiores aos de todo o setor petrolífero dos EUA – algo em torno de 0,5% do PIB do país.
A evolução acelerada da IA significa que seu consumo de eletricidade deve ser considerado, no mínimo, um problema a ser resolvido nos próximos anos. Alguns países já enfrentam a pressão do setor: na Irlanda, onde os data centers já representavam mais de 20% do consumo de eletricidade do país em 2023, foi criada uma moratória contra novos data centers em Dublin até 2028.
Emissões e impactos ambientais ignorados
Paradoxalmente, a IA e seu apetite voraz por eletricidade estão crescendo mais rapidamente do que a transição para fontes e sistemas de energia totalmente renováveis. Isso não só perpetua a dependência tecnológica aos combustíveis fósseis, mas, em alguns locais, atrasou o fechamento de usinas movidas a carvão, que seguiram emitindo gases de efeito estufa.
Além disso, os data centers exigem grande volume de água para resfriamento e minerais essenciais para a fabricação de seus hardwares, agravando os problemas de escassez de água e a dependência de um setor de mineração com práticas ambientalmente questionáveis.
Os dados também revelam uma falta de transparência: em 2024, a Microsoft e o Google não só não atingiram suas metas climáticas, como as emissões associadas aos seus data centers podem ter sido subnotificadas. Estudos indicam que as emissões reais dos data centers dessas duas empresas podem ser sete vezes maiores às que foram informadas.
Como a América Latina entra nessa história?
Análises destacam o Brasil, o México, o Chile, a Colômbia, o Peru, o Uruguai, a Costa Rica e o Panamá como os países da América Latina com o maior potencial de crescimento em termos de infraestrutura de IA. Junto à África e ao Oriente Médio, a região é responsável por 5% do consumo de energia elétrica dos data centers. Isso traz oportunidades para fortalecer a conectividade, promover o emprego na área de tecnologia e alavancar investimentos em data centers para impulsionar a integração das fontes renováveis na matriz elétrica regional.
A região já tem observado um crescimento significativo no setor. Países como Brasil, México e Chile atraem investidores devido à sua infraestrutura e seus sistemas de energia sólidos, além de políticas governamentais permissivas. Ao mesmo tempo, os data centers pressionam os sistemas de eletricidade e o abastecimento de água em nações que têm enfrentado secas prolongadas e crises hídricas – é o caso de México, Chile e Uruguai.
Além disso, será necessário desenvolver uma estratégia para o aproveitamento da IA e de sua infraestrutura associada entre os países do Sul Global, a fim de evitar o surgimento de um “extrativismo digital” que coloque os data centers a serviço exclusivo dos países industrializados, às custas de nossos ecossistemas.
Caminho a seguir
A IA promete soluções climáticas, mas sua crescente demanda energética e seus impactos ambientais criam incertezas. Sem medidas que garantam a eficiência, a transparência e a sustentabilidade desses sistemas, seu desenvolvimento pode aprofundar a crise que tenta combater. A América Latina tem uma posição estratégica nesse cenário, mas deve evitar cair em um extrativismo digital que agrave as desigualdades e pressione ainda mais seus recursos naturais.
Por isso, os países latino-americanos devem manter um diálogo aberto e franco com a academia, o setor de tecnologia e outras nações do Sul Global para estruturar uma cadeia de valor que aproveite a IA na reindustrialização de nossa região, sem esquecer a importância de uma transição energética justa. Isso implica no desenvolvimento de políticas públicas, regulamentações, incentivos e salvaguardas que canalizem a IA para um uso focado em soluções de adaptação e mitigação do clima, apoiando a diversificação econômica e geração de receitas que permitam abandonar os combustíveis fósseis.
Esta reportagem foi originalmente publicada no Dialogue Earth sob a licença Creative Commons BY NC ND. Leia o texto original.
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