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ESG tem pouco impacto na transição para a energia verde até agora

Por que governos subsidiam petróleo e gás? Eles são lobistas com bolsos cheios

POR ANDY HIRA

À medida que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas aumenta seus terríveis alertas sobre as mudanças climáticas e seu impacto subsequente na biodiversidade, meio ambiente, alimentação e sistemas de saúde, os mesmos relatórios também apontam que temos soluções disponíveis na forma de energia limpa e renovável.

Há uma série de desafios para realizar a transição. Um deles é o bloqueio de carbono, que se refere à quantidade de dinheiro que já gastamos em infraestrutura de combustíveis fósseis em comparação com o custo de construção de novos sistemas, como estações de carregamento de veículos elétricos.

Outros desafios incluem fontes de energia renováveis ​​intermitentes, como solar e eólica, porque o sol nem sempre brilha e o vento nem sempre sopra. Os desafios do armazenamento de energia também são grandes.

Mas, além dessas questões, há um problema ainda mais fundamental: finanças.

Dinheiro é o que faz o mundo girar

Todas as indústrias e negócios dependem das finanças. Elas são o óleo lubrificante que permite que os mercados funcionem. Como vimos durante a crise financeira de 2008, quando as finanças secam, a atividade empresarial pode estagnar e lançar a economia em recessão.

Mas o setor financeiro precisa de regulamentação para garantir que investimentos, decisões de negócios e contratos sejam sólidos. O fracasso de tais regulamentos contribuiu para a crise de 2008. A transição para energia limpa agora enfrenta um problema semelhante.

Alguns governos, como o dos Estados Unidos, já investiram em energia limpa, mas nosso sistema financeiro global ainda é extremamente dependente de combustíveis fósseis.

O Fundo Monetário Internacional estima que os subsídios aos combustíveis fósseis globais totalizaram US$ 5,9 trilhões em 2020 – aproximadamente 7% do PIB.

No entanto, a Agência Internacional de Energia estima que os governos gastaram apenas US$ 1,34 trilhão em energia limpa de 2020 a 2023. Precisamos gastar pelo menos US$ 5 trilhões anualmente se quisermos evitar os piores efeitos da mudança climática.

Transição lenta de energia limpa

Por que os governos continuam a subsidiar fortemente o petróleo e o gás? A resposta é simples: eles são lobistas poderosos com bolsos cheios. As cinco maiores empresas gastam pelo menos US$ 200 milhões anualmente para influenciar os governos.

Por outro lado, os empregos verdes são mais abundantes e crescem mais rapidamente, mas não são bem-organizados e estão espalhados por uma variedade de setores. Para combater isso, várias organizações passaram a desinvestir em combustíveis fósseis em resposta à pressão de ativistas.

Algumas organizações estão redirecionando seus fundos dos combustíveis fósseis para o chamado investimento ético. Algumas das maiores empresas de private equity, como a BlackRock, estão agora envolvidas em investimentos sustentáveis.

O UBS, um banco de investimento multinacional, argumentou que metade de todo o investimento institucional – US$ 60 trilhões globalmente – é supostamente investido em “ações verdes e socialmente responsáveis”. Isso incluiria todos os grandes fundos de pensão.

Mas, apesar de toda essa atividade, a transição para energia limpa a partir de combustíveis fósseis está acontecendo em um ritmo lento. Por quê?

Armadilhas do investimento ético

Nos últimos três anos, investiguei como os gestores de fundos de investimento decidem o que é ético quando se trata de investimento socialmente responsável.

Os resultados dessa investigação e um estudo mais amplo dos sistemas de relatórios de responsabilidade social corporativa são discutidos em meu novo livro, The Smoke and Mirrors Game of Global CSR Reporting (O jogo de fumaça e espelhos dos relatórios globais de responsabilidade social corporativa, em tradução livre).

Examinei os sistemas de relatórios de empresas de investimento como a MSCI. Essas empresas vendem relatórios que oferecem avaliações de acordo com as quatro categorias de investimento ambiental, social e de governança, bem como pontuações compostas e classificação de pares por setor.

Embora a abordagem pareça abrangente, decidi examinar mais de perto esses sistemas. Usei bancos de dados de terceiros para desenvolver meu próprio banco de dados de supostos “assassinatos” ou “mortes” associados a empresas nos setores de eletrônicos, mineração e vestuário.

Também conduzi estudos de caso de grandes incidentes corporativos, como o desastre da fábrica Rana Plaza, em Bangladesh. Previ que desastres éticos, como a série de suicídios de trabalhadores ocorridos em uma fábrica da FoxConn, na China, em 2010, levariam a consequências na forma de mudanças no investimento ético.

Descobri que, em alguns casos, desastres éticos estavam ligados a graves perdas nos negócios, como o fechamento da mina Pascua-Lama, da Barrick, no Chile, após preocupações ambientais.

No entanto, houve pouca ou nenhuma consequência financeira para desastres éticos flagrantes. Em alguns casos, houve uma leve queda temporária nos preços das ações, mas nada substancial.

Falhas nos relatórios financeiros

Após um exame mais detalhado dos sistemas de relatórios, várias fontes de falha tornaram-se claras. Primeiro, as agências de relatórios não revelam seus métodos para suas pontuações e eles mudaram ao longo do tempo.

Em segundo lugar, como existem pelo menos cinco categorias diferentes de indicadores de pontuação, uma pontuação ruim em uma categoria não resulta necessariamente em uma pontuação ruim em outras categorias ou na pontuação composta.

Em terceiro lugar, as poucas histórias e relatórios sobre desempenho ético foram abafados pela quantidade esmagadora de informações sobre desempenho financeiro.

Quarto, como os relatórios geralmente são feitos anualmente, não há incentivo para as empresas lidarem com questões de longo prazo, como melhorar os padrões de trabalho ou investir em tecnologia ambiental.

Na verdade, ninguém está prestando muita atenção às condições no terreno. Os relatórios são baseados em alguns agregadores de notícias, como a plataforma de pesquisa Factiva, que divulga muitos eventos, mas não analisa as fontes ou soluções para problemas complexos.

Essas e outras questões explicam por que o investimento socialmente responsável teve tão pouco impacto na transição para a energia verde. Há uma responsabilidade mínima para as empresas que violam seus compromissos éticos.

Rumo a um investimento ético verdadeiro

É claro que os gestores de fundos – incluindo aqueles que supervisionam os fundos de pensão – não possuem os sistemas de informação necessários para tomar decisões éticas de investimento. Também não enfrentam qualquer pressão para ir além de evitar escândalos e priorizar retornos de investimento de curto prazo, independentemente das consequências para nossa saúde ou para o planeta.

Qualquer pessoa que investe em um fundo de pensão/previdência deve revisar cuidadosamente seus portfólios de investimento para garantir que seus recursos sejam realmente investidos de forma ética. A maioria dos investidores tem como certo que os princípios éticos declarados estão sendo respeitados, quando na realidade são apenas gestos feitos para impressionar.

Na verdade, há uma boa chance de fundos de investimento rotulados como “éticos” estarem associados a empresas que têm problemas envolvendo questões trabalhistas, ambientais ou de mudanças climáticas.

Devemos pressionar quem cuida do nosso dinheiro a mudar seus portfólios com base em relatórios neutros e detalhados do comportamento da empresa. Isso forçará as organizações a fazer escolhas éticas reais que beneficiarão a todos a longo prazo.

Se um número suficiente de nós começar a prestar atenção, podemos usar coletivamente nosso poder financeiro e de consumo para transformar o mundo em um lugar mais ético e evitar desastres climáticos.

Este texto foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original em inglês.

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Andy Hira – Professor de Ciência Política pela Universidade de Simon Fraser, localizada na província da Colúmbia Britânica, no Canadá.

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