Como Sísifo, empurramos diariamente a pedra para o alto – mas ela invariavelmente rola montanha abaixo (Foto: Fotomontagem gerada com IA)

A existência em pequenas brechas: quantos stories cabem em uma vida?

“A apresentação do circo vai começar em cinco minutos.” Foi a primeira vez que me deparei com uma medida exata de tempo. Até os quatro anos, eu fazia contas do meu jeito, inventava infinitas estratégias para registrar a passagem das horas.

A partir desse dia, cinco minutos viraram minha forma de mensurar o agora. Quando as professoras me falavam que era hora de guardar os brinquedos, eu pedia mais cinco minutos. Quando queria uma resposta, exigia o retorno em cinco minutos. Quando precisava saber se algo seria rápido, eu perguntava se duraria cinco minutos. Não era muito, mas era uma forma de ter mais controle sobre a finitude.

O tempo tem seus paradoxos. Ao longo dos anos, ele foi sendo ressignificado a ponto de se tornar meu inimigo. Despertador, prazos de entrega, duração de provas, trabalho… Os cinco minutos, que me eram tão familiares, se tornaram limitantes. A experiência, no entanto, não era individual. Aparentemente, as pessoas têm muita pressa. Todos querem chegar a algum lugar – mas ninguém sabe qual.

Contagem regressiva

Vivemos sob a culpa de atrasos imaginários, imersos em uma rotina que desumaniza e reconfigura a vida como se fosse uma receita de bolo. Um passo a passo em uma ordem específica, que não permite muitas invenções. A cada conquista no tempo certo, check.

Qualquer pessoa que fuja à regra informalmente estabelecida desperta algum tipo de incômodo nos demais. Sua amiga está “atrasada”, porque ainda não se estabeleceu profissionalmente. Seu primo está constrangido de contar que trancou a faculdade de Direito para voltar ao cursinho, porque a família pode achar que ele está “perdendo tempo”. Você recém completou 30 anos e precisa decidir se vai ser mãe, porque está ficando “sem tempo”.

Toda essa ansiedade e aceleração é internalizada. Faz parte de uma cultura – nem sempre silenciosa – que exerce domínio sobre nossa vida. Ninguém quer “ficar para trás” – mesmo que o “para trás” seja relativo e não signifique nada.

No automático

Embora sejamos vistos como robôs, não somos programados para o descanso. O ócio é visto pela psicanálise como um período valioso de autoconhecimento, reflexão e criatividade. Mas quem tem tempo para isso? Em uma sociedade capitalista, um ato tão simples como descansar passa a ser visto como sinônimo de preguiça ou disrupção. Na imersão da rotina, tarefa árdua é encontrar brechas para respirar. O tempo passa tiquetaqueando em uma contagem regressiva, parecendo cada vez mais escasso.

Viver nas brechas do trabalho não permite tempo suficiente para fazer escolhas voluntárias

As horas se sobrepõem e minam qualquer possibilidade de fazer algo diferente de uma necessidade básica: -1h, -2h, -3h. Tique-taque. Quando se dá conta, mais um ano se foi, e você ocupado em sobreviver. Fadado a empurrar incansavelmente até o alto da montanha uma pedra imaginária, que tornaria a cair – sem propósito, assim como no mito de Sísifo. Tentando fugir de um tempo que te amordaça e te faz refém, acorrentado a relógios-sentenças.

Entre performances

A tentativa de lavagem cerebral é tão grande que a famosa frase “mente vazia, oficina do diabo” virou mantra. É proibido ficar sozinho com os próprios pensamentos. Atividades comuns do dia a dia perdem o significado. As coisas não podem ser feitas simplesmente por um hobby descompromissado. Tudo precisa ter um grande enredo por trás – e nem tudo na vida tem um porquê. Às vezes, só é como é.

Vivemos em uma sociedade tão mentalmente exausta – e, por que não, doente? –, que tudo vira sinônimo de produtividade. Tudo passa a ser contabilizado, registrado, exposto. É uma tentativa de provar a si mesmo (e aos outros) que você não está “perdendo tempo na vida”.

Mundos opostos

Virgínia viaja de jatinho para economizar tempo; seus seguidores a assistem para se distrair da realidade

Imagine só: você acabou de acordar e a influencer fitness que você segue já está acordada há horas e indo para o segundo esporte do dia. No próximo story, a Virgínia já acordou, levou a Maria Alice no hipismo, comeu maçã, tomou mingau, resolveu coisas no WhatsApp, tomou creatina e ainda vai tomar a vitamina capilar… E você, fez o quê?

A falácia das 24 horas

Gastamos os poucos momentos de descanso que nos resta admirando a vida de outras pessoas por telas. Pessoas que sequer conhecemos na vida real, mas que têm uma coisa que valorizamos: tempo. Têm tempo para viver experiências legais, colecionar memórias e aproveitar a vida. Então o que nos resta é assistir a elas, como se fosse um grande reality show. Uma festa para a qual você não foi convidado. Afinal, o tempo é o grande luxo imaterial pelo qual disputamos e doamos a nossa vida.

Entre um story e outro, você se distrai. Mas, quando se dá conta, os dias se mesclam e você está no trabalho de novo, no transporte público, preso em um ciclo de exaustão – em uma máquina de moer gente, como diria o antropólogo Darcy Ribeiro. Sai quando ainda está escuro, volta para casa quando já anoiteceu. Não é privado apenas do direito ao lazer e ao descanso, mas do direito à luz do dia, ao olho no olho. Às vezes, vê mais a filha da sua influencer favorita do que a sua.

Tigrinho para as massas

Dinheiro no bolso de alguns, ilusão na mente de outros: trabalhador cochila enquanto aposta nas bets

Viver nas brechas do trabalho não permite tempo suficiente para fazer escolhas voluntárias. A exaustão da rotina sempre empurra ao meio mais fácil. Para comida, ultraprocessados. Para entretenimento, redes sociais. O tempo é definidor de classe.

Se você tem tempo para pensar, tem tempo para questionar e para se revoltar. A quem isso interessa? É melhor que você fique assistindo a stories do Carlinhos Maia antes de dormir e faça uma aposta na “nova plataforma que está pagando muito”. Até porque, no final do dia, a pedra rola morro abaixo e cabe a você recomeçar o ciclo. Enquanto isso, os ponteiros avançam. Tique-taque.

Foto: Fotomontagem gerada com IA
Como Sísifo, empurramos diariamente a pedra para o alto – mas ela invariavelmente rola montanha abaixo

 

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