A transformação global exige uma reavaliação profunda das abordagens tradicionais à liderança (Foto: Freepik)

A compaixão como estratégia para gerar relevância e sustentabilidade

POR LISA POLLONI

Em 2026, o mundo corporativo chega a um ponto de inflexão inevitável. A aceleração da adoção da inteligência artificial, a consolidação do trabalho híbrido e as novas regulamentações (obrigatoriedade plena de gerenciamento de riscos psicossociais na NR-1 brasileira a partir de maio) expõem de vez o que já era visível: o desgaste emocional não é mais um problema isolado. Ele é sistêmico. O estresse crônico, os conflitos não resolvidos e a desconexão emocional tornaram-se o pano de fundo da rotina de milhões de profissionais. O medo vira rotina, e a rotina ganha nome de carreira.

Esse cenário não surgiu do nada. É o resultado acumulado de décadas priorizando eficiência operacional acima da saúde emocional das equipes, agravado pela pandemia e pela fragmentação das relações de trabalho. Mas é exatamente agora, em 2026, que a liderança humanizada emerge não como tendência passageira, mas como imperativo estratégico. Nesse cenário entra a compaixão. Antes vista como qualidade pessoal ou soft skill, revela-se como uma competência essencial para retenção de talentos, inovação e resiliência organizacional.

Depois de quase três décadas liderando equipes em diferentes níveis e culturas, incluindo crises internas, reestruturações e uma década trabalhando em uma gigante de tecnologia americana, decidi me aprofundar em liderança humanizada e fui estudar na Stanford University, no Center for Compassion and Altruism, Research and Education (CCARE). Lá, confirmei o que a prática já me mostrava: nenhuma estrutura organizacional resiste quando ignora o componente humano que a sustenta. Processos, metas e organogramas são fundamentais, mas equipes emocionalmente exauridas sabotam qualquer tentativa de alta performance.

Os riscos psicossociais, tais como assédio sutil, sobrecarga emocional, isolamento, falta de reconhecimento e conflitos velados, aparecem raramente nos relatórios de performance das empresas, mas explodem em indicadores reais: afastamentos crescentes (no Brasil, quase 500 mil por transtornos mentais em 2024, segundo o Ministério da Previdência), rotatividade alta, burnout generalizado e perda de talentos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que depressão e ansiedade relacionadas ao trabalho custem à economia global US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade, equivalendo a 12 bilhões de dias úteis perdidos anualmente, incluindo absenteísmo.

A pergunta inevitável: como esperar inovação, colaboração e alta performance de equipes que operam no limite emocional?

Muitas organizações tentaram responder com paliativos, treinamentos genéricos, apps de meditação, lanches gratuitos, “sexta-feira livre” ou tecnologias de monitoramento de comportamento. São úteis em alguns casos, mas tratam os sintomas, não a raiz do problema. A compaixão age na origem: na qualidade das relações humanas. Ela ensina os gestores a reconhecerem a humanidade comum, o sofrimento alheio e motiva a ação para aliviá-lo.

Pesquisas de Stanford (CCARE) e Harvard (estudos sobre psychological safety, como os de Amy Edmondson) mostram que equipes lideradas com compaixão apresentam reduções significativas de estresse, maior engajamento, produtividade elevada e retenção de talento. Isso acontece porque ambientes compassivos criam segurança psicológica que representa a base para que as pessoas arrisquem ideias novas, se sintam engajadas e comprometidas, admitam erros e colaborem de verdade.

Minha experiência confirma isso na prática. Nos últimos 10 anos, liderei uma equipe enorme e espalhada por vários países em uma gigante de tecnologia americana. Ao praticar os princípios da liderança compassiva, enfrentei muita resistência inicial. Fui chamada de “boazinha”, “permissiva” ou “emocional demais”, como se cuidar do bem-estar do meu time fosse incompatível com bons resultados.

Em culturas competitivas e de alta pressão, a compaixão ainda é vista por alguns como fraqueza. Mas os dados mudaram a narrativa: minha equipe tornou-se a mais integrada, apresentou os maiores índices de produtividade, com menor turnover e maior satisfação nos ciclos de avaliação. Os conflitos caíram, a criatividade fluiu e o engajamento subiu consistentemente ano após ano.

A transformação veio de práticas diárias simples e consistentes (veja a tabela). Essas práticas não exigem grandes orçamentos – exigem intenção e consistência.

Em ambientes sem compaixão, o home office vira solidão crônica, o presencial gera favoritismos e ressentimentos e a inovação morre no medo de errar. Já em organizações que a incorporam como valor central, surgem redes de apoio, mentorias autênticas, conversas honestas e um senso profundo de pertencimento e segurança psicológica – fundamentais para criatividade e colaboração.

No fim, a equação é simples: pessoas são o coração do negócio. Quando esse coração é nutrido, a organização floresce. Quando é ignorado, tudo se fragiliza. A compaixão não é um adorno – é o alicerce de uma liderança verdadeiramente sustentável.

E você, líder? O que fará em 2026 para transformar a compaixão em sua estratégia mais poderosa?

Lisa Polloni – Lisa construiu sua carreira ao longo de quase 30 anos liderando equipes e transformando culturas organizacionais. Com formação executiva na Stanford University CCARE e pós-graduação em Psicologia Positiva na PUC, aprofundou-se em liderança compassiva e comportamento humano no trabalho, temas centrais do seu livro O poder da compaixão no ambiente de trabalho. Hoje, ajuda líderes e equipes a criar ambientes mais saudáveis, inovadores e sustentáveis, unindo experiência prática e visão estratégica.

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