Em meio a mudanças e incertezas, o mercado e os trabalhadores se reinventam
Ao longo dos últimos dez anos, o mercado brasileiro enfrentou uma série de desafios: reforma trabalhista, crise econômica, pandemia, discussões em torno do home office, fim da escala 6×1, precarização, avanço da tecnologia e automação. A cada novo dilema, o universo do trabalho se redesenhou. Mas como será o futuro?
“A questão central já não é apenas gerar empregos, mas que tipo de trabalho, com que direitos e para qual projeto de país”, avalia José Eustáquio Diniz, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “O Brasil é um país que ainda evita discutir redução da jornada de trabalho, renda básica e proteção universal desvinculada do emprego formal, tributação do capital e das plataformas, política industrial explícita, jornada 6×1 e valorização social do trabalho de cuidado.”
De acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego no Brasil caiu para 5,1% ao final de 2025 – mantendo-se em queda e atingindo o menor nível da série histórica iniciada em 2012.
Os números, no entanto, não evidenciam o cenário de precarização vivido por boa parte dos trabalhadores. De acordo com Diniz, essa é uma tendência global. “Temos menos empregos, mais contratos temporários, intermitentes, ‘autônomos dependentes’ e expansão do trabalho por demanda [gig economy]”, analisa. “A precarização se sofisticou, tornando-se menos visível juridicamente e mais difusa socialmente.”
Um fenômeno que também atinge os empregos formais do país. Segundo Ruy Braga, sociólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP), há uma fragilização crescente da proteção do trabalho no contexto nacional, o que faz com que os setores formais se aproximem cada vez mais da informalidade, com mudança de contratos de trabalho com base no modelo CLT para outros na modalidade de pessoa jurídica (PJ). “O trabalho formal, em alguns casos, deixa de ser atraente.”
“Isso pode significar aumento da renda em um primeiro momento, mas depois vai representar um enfraquecimento das formas coletivas de organização e uma compressão dos rendimentos do trabalho”, explica o sociólogo. Para o profissional, o mercado se tornaria mais volátil a longo prazo, com aumento da taxa de turnover e trabalhadores cada vez mais afastados da previdência social.
O que os trabalhadores desejam
O perfil do trabalhador mudou e a relação que ele estabelece com o trabalho, também. “Não temos exatamente uma nova classe trabalhadora, mas talvez uma classe sujeita a novos mecanismos de exploração”, observa Fillipi Nascimento, doutor em sociologia e um dos autores do livro A loteria do nascimento: filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico.
A pesquisa Work Relationship Index, da HP, revela que apenas 29% dos profissionais mantêm uma relação saudável com o trabalho, 37% estão na zona de atenção e 34% se concentram na zona crítica – marcada por pressão, altas demandas e pouco reconhecimento. Isso representa um aumento de 9% em relação ao ano de 2024.

Duas visões do emprego no entreguerras
O argentino Antonio Berni com Manifestación e Tarsila do Amaral com Operários (1933): o tipo do trabalho mudou; a precarização, nem tanto
O desgaste é ainda mais presente entre os jovens. A geração Z busca por novos modelos de trabalho e tem como foco flexibilidade, autonomia e acesso à tecnologia. Segundo o estudo, 90% desses profissionais aceitariam ganhar menos se tivessem esses fatores garantidos.
A pesquisa ainda mostra que, para 71% dos brasileiros, as exigências e expectativas das empresas aumentaram no último ano. A percepção é de que o trabalho cobra mais, mas as recompensas e os benefícios não acompanham na mesma medida. Entre os entrevistados, 39% dizem perceber que as empresas priorizam o lucro em detrimento das pessoas.
Outro levantamento, realizado pelo Centro de Análise da Sociedade Brasileira (Casb), aponta que 4 em cada 10 trabalhadores se sentem sob risco psicológico no trabalho – reflexo da precarização enfrentada pelo país em todos os setores.
A precarização por trás das plataformas
“A informalidade sempre fez parte da história do mercado de trabalho brasileiro”, comenta Diniz. A informalidade caiu durante a primeira década do século 21, voltou a subir após a recessão de 2015-2016 e, desde 2022, estabilizou-se em torno de 38-40% dos ocupados. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o trabalho informal deve atingir 2,1 bilhões de trabalhadores em 2026. “Ela deixou de ser transitória e passou a ser estrutural, especialmente fora dos grandes centros industriais.”
Uma das categorias que mais sofre com isso é a dos trabalhadores de aplicativo. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, 71,1% dos motoristas e entregadores estavam em situação de informalidade em 2024, enquanto a informalidade dos não plataformizados era de 43,8%.
“Muitas vezes, o trabalhador ‘prefere’ – entre aspas, até porque não tem muita alternativa – ficar na informalidade, porque ganha um pouco mais, tem flexibilidade e, dependendo, consegue até combinar trabalho formal com informal para complementar a renda”, diz Braga.
O estudo também revela que as pessoas que trabalhavam por aplicativo em 2024 tiveram rendimento médio mensal de R$ 2.996. O valor é 4,2% superior à renda de trabalhadores que não atuavam por meio de plataformas (R$ 2.875). Em relação às jornadas, o levantamento revela que os plataformizados trabalhavam 44,8 horas semanais; enquanto os demais enfrentavam 39,3 horas em 2024. Apesar de ganharem mais no total, recebem menos por hora. O valor é 8,3% inferior ao recebido pelos não plataformizados (R$ 15,4/hora e R$ 16,8/hora, respectivamente).
Uma informalidade baseada em um conceito de falsa liberdade, em que os trabalhadores são submetidos à subordinação algorítmica. “Essas pessoas não têm chefe ou um supervisor visível, mas elas têm meta, punição, ranqueamento e podem ser desligadas da plataforma a qualquer momento sem que nenhum direito seja assegurado”, explica Nascimento.
A pesquisa Mobilidade urbana e logística de entregas: um panorama sobre o trabalho de motoristas e entregadores com aplicativos, realizada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), mostra que os trabalhadores de aplicativo (entregadores e motoristas) são majoritariamente pretos e pardos (68% e 62%) e concentram-se na classe C ou inferior (80% e 75%, respectivamente). “A maioria atua como estratégia de sobrevivência, não como escolha empreendedora”, avalia Diniz (saiba mais sobre empreendedorismo periférico no box abaixo).
“O discurso empreendedor acaba naturalizando a precarização e apagando as condições materiais, transferindo um problema estrutural para o campo da responsabilidade individual”, salienta Nascimento. “Sem regulação, a plataformização tende a ampliar a precariedade, não a inclusão sustentável”, complementa o demógrafo.
Oportunidades em um país desigual
Apesar de ser importante, a educação já não é mais suficiente para garantir a entrada no mercado de trabalho. Uma pesquisa divulgada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) revelou que 57,3% dos trabalhadores afirmam ser difícil ou muito difícil conseguir emprego no Brasil em 2025. “A educação abre portas, mas ela, por si só, não garante que alguém vá conseguir atravessar a porta”, afirma o autor do livro A loteria do nascimento: filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico.
Um em cada cinco jovens está fora do mercado de trabalho no mundo
O levantamento aponta que duas faixas etárias são as mais prejudicadas no mercado. Entre jovens de 18 a 24 anos, 68% relatam dificuldade em conseguir o primeiro emprego. Entre os trabalhadores com mais de 50 anos, 61% dizem enfrentar rejeição devido à idade (leia mais sobre os dilemas enfrentados pelas diferentes gerações na reportagem Ninguém quer mais trabalhar).
De acordo com a OIT, um em cada cinco jovens – o correspondente a 260 milhões de pessoas – está fora do mercado de trabalho e de programas de educação e formação profissional. Isso ocorre porque o mercado está mais exigente, com menor oferta de vagas formais e concentração de oportunidades de baixa remuneração – fatores que atingem não apenas aqueles com baixa escolaridade, mas também pessoas com curso técnico e diploma universitário.
O levantamento O ensino e o mercado de trabalho – análise de cenário, encomendado pela Geofusion, revela que, entre os 15 cursos com maior número de matriculados no país, apenas 1 em cada 10 graduados consegue ingressar no mercado em cargos compatíveis com a formação. “A educação melhora vidas, mas não consegue compensar todas as desvantagens que as pessoas têm. Sobretudo aquelas que já nascem num contexto marcado por dificuldades”, explica Nascimento.
Para ele, parte da compensação deve ser papel das companhias. “Se a empresa está preocupada efetivamente em promover a equidade, ela não pode apenas não discriminar, ela tem que repensar certas práticas que começam desde o recrutamento”, explica. Isso porque o ponto de partida de cada candidato é diferente.
“Caso contrário, as posições mais altas vão continuar sendo ocupadas por aqueles perfis que já conhecemos e as camadas populares vão permanecer concentradas em funções precarizadas, de alta rotatividade e pouco reconhecimento.”
Empreendedorismo periférico
Em meio à precarização e à falta de oportunidades, a periferia busca estratégias para resistir e superar desafios. “O que a gente percebe é que a favela já vem de uma natureza empreendedora”, diz Alex dos Santos, o Lemaestro, cofundador da Gerando Falcões.
Dados do Instituto Data Favela, ligado à Central Única das Favelas (Cufa), a partir de entrevistas com mil empreendedores, apontam que as principais motivações para se iniciar um negócio nas favelas são o desejo de independência (45%), as necessidades econômicas (29%), a falta de emprego (26%), as oportunidades (18%) e a tradição familiar (7%). “A capacidade que essas pessoas têm de solucionar problemas e resistir à escassez é justamente a habilidade que hoje as empresas buscam em seus colaboradores.”

Nas periferias, desejo por independência e dificuldades financeiras são as principais motivações para empreender
A pesquisa mostra que 19% dos empreendedores analisados conciliam o negócio com outro emprego, sendo 9% com carteira assinada. Além disso, 40% são formalizados, sendo 36% classificados como microempreendedor individual (MEI).
“Estamos caminhando para que o empreendedorismo passe a ser escolha e não uma questão de sobrevivência”, anseia Lemaestro, que vê um grande potencial no uso e domínio da inteligência artificial para alavancar negócios nas periferias.
Tecnofeudalismo em ação
Com tantos bilionários por aí, pode parecer que o capitalismo continua seu caminho de acúmulos e glórias (isso sob o ponto de vista dos capitalistas, obviamente). Mas esse olhar superficial esconde uma grande modificação que vem ocorrendo nas relações econômicas. “O capitalismo já está morto, no sentido de que suas dinâmicas já não regem nossas economias”, afirma o economista grego Yanis Varoufakis. “Ele foi substituído nesse papel por algo fundamentalmente distinto, que chamo de tecnofeudalismo.”
Para Varoufakis, mercado e lucro continuam presentes, mas deixaram de definir o que é a sociedade. “Foram substituídos por plataformas de comércio digital que parecem mercados, mas não são, e que são mais bem entendidas como feudos. E o lucro foi substituído pela renda, a ‘renda das nuvens’”, diz ele no livro Tecnofeudalismo: O que matou o capitalismo (2025).
O capital tecnofeudal investe para tomar controle de campos de atividade social
Antes do crescimento da economia digital, os meios de produção eram plurais e a circulação de capital dava lugar à concorrência. Na economia digital, os indivíduos e as empresas aderem às plataformas digitais “que centralizam uma série de elementos que lhes são indispensáveis para existir economicamente na sociedade contemporânea”. E elas são poucas, pouquíssimas.
Quanto mais participamos dessas plataformas, mais se acentua a dependência, diz outro pesquisador do assunto, o economista francês Cédric Durand. “Se o capital tradicional investe para baixar custos ou satisfazer a novas necessidades, o capital tecnofeudal investe para tomar o controle de campos de atividade social para criar relações de dependência que ele possa, depois, monetizar”, diz Durand em artigo na revista Contretemps.

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